Por Marco Severini — Em um movimento que exige leitura atenta do tabuleiro diplomático, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni afirmou nesta manhã em Seul que o aumento de tarifas anunciado pelos Estados Unidos é “um erro” e defendeu que é preciso evitar uma escalada entre Washington e Bruxelas. Segundo a premiê, há um problema de compreensão e comunicação entre as duas margens do Atlântico sobre a decisão de alguns países europeus de contribuir com tropas na Groenlândia e no Ártico.
Meloni disse ter mantido contato telefônico com o ex-presidente Donald Trump “nas horas seguintes” ao anúncio de que os EUA pretendem aplicar um aumento aduaneiro de 10% contra nações que optem por enviar contingentes militares ao Ártico. A chefe do governo italiano reiterou, com a calma de quem pondera riscos geopolíticos, que a resposta deve ser a retomada do diálogo e a busca pela contenção de tensões.
“A previsão de aumento de tarifas contra países que contribuíram para a segurança da Groenlândia é um erro e eu não a compartilho”, declarou Meloni, esclarecendo que a iniciativa europeia em questão não deve ser interpretada em chave antiamericana. A premiê acrescentou que ouviu o presidente dos EUA e que este demonstrou interesse em escutar. Também referiu ter contato com o secretariado da OTAN, que estaria a iniciar um trabalho de coordenação sobre a matéria.
Já no terreno diplomático, o governo italiano tenta assumir papel de mediador. O ministro da Defesa, Guido Crosetto, foi o primeiro a pedir diálogo e cautela. Em Bruxelas, foi convocada para hoje à tarde uma reunião de emergência dos embaixadores dos 27 Estados-membros da União Europeia, com início previsto para as 17h, justamente para avaliar a situação da ilha dinamarquesa e as potenciais retaliações tarifárias americanas.
As reações entre os principais parceiros europeus permaneceram duras. Fontes próximas ao Palácio do Eliseu informaram que o presidente Emmanuel Macron estaria pronto a pedir a ativação do instrumento antirretaliatório da UE caso venham a ser aplicadas novas taxas pelos EUA. Segundo assessores, Macron estaria mobilizado para coordenar uma resposta europeia a medidas tarifárias que são consideradas “inaceitáveis”. Há, além disso, interrogações sobre a vigência do acordo comercial firmado entre UE e EUA no verão passado.
Meloni sublinhou que pretende falar ao longo do dia com outros líderes europeus. “Acredito que, nesta fase, é fundamental conversar e evitar uma escalada, porque podemos trabalhar juntos para atingir um objetivo útil e necessário”, disse a premiê, lembrando que a cooperação no Ártico passa por interesses comuns e por equilibraresferas de segurança que não devem ser corroídas por respostas unilaterais.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um momento em que os alicerces da diplomacia transatlântica são testados. A menção à Groenlândia e ao Ártico — zonas de crescente valor geopolítico, logístico e energético — transforma um conflito tarifário em um confronto simbólico sobre autoridade e presença militar. Como em um lance decisivo no tabuleiro de xadrez, as peças se movem não apenas pela intenção declarada, mas segundo uma arquitetura de percepções e receios que pode redesenhar linhas de influência.
O governo italiano, por ora, privilegia a contenção e a mediação, numa leitura que prioriza a estabilidade das alianças e evita rupturas de ordem estratégica. O apelo de Meloni à conversa e à prevenção de uma escalada funciona como um esforço diplomático para recompor canais de comunicação e evitar que a disputa tarifária se transforme em redimensionamento permanente das fronteiras invisíveis do poder.





















