Tillie Martinussen, política da Groenlândia e ex-deputada associada a correntes liberais, apresentou uma resposta dura e cristalina às declarações do ex-presidente Donald Trump sobre a intenção de “comprar” a ilha ártica. Membro de destaque do Suleqatigiissitsisut – Samarbejdspartiet (Partido da Cooperação), uma formação de centro-direita que defende a permanência da Groenlândia no seio do Reino da Dinamarca, Martinussen disse que qualquer tentativa de transação falharia diante dos alicerces culturais e institucionais da sociedade groenlandesa.
Na sua réplica pública, Martinussen destacou que os groenlandeses não consideram a terra um bem passível de propriedade privada nos moldes anglo-saxões: é possível obter um lote para construir a casa, mas o solo permanece de uso coletivo. “A terra pertence a todos”, afirmou, estendendo o princípio às riquezas do mar, um argumento que desmonta a lógica de mercado por trás de propostas como a anunciada por Donald Trump.
Para a dirigente, a negociação financeira não move a vontade política do povo groenlandês. Mesmo se fossem oferecidos valores elevados — citando hipoteticamente “100.000 dólares por pessoa” — os residentes não abririam mão da soberania, nem dos serviços públicos que estruturam a sociedade: a saúde gratuita e a educação gratuita. “Não queremos ser ricos como os americanos”, disse Martinussen, numa crítica contida àquilo que definiu como uma propensão à avidêz que pode levar à confrontação entre aliados.
A declaração ocorre num momento de alta sensibilidade geoestratégica. A Groenlândia, por sua posição no Ártico e por potenciais reservas minerais e hidrocarbonetos em seu subsolo, tornou-se peça num tabuleiro onde arquiteturas de poder são redesenhadas. Martinussen reconheceu a presença desses recursos, mas reiterou que eles não podem ser convertidos em moeda de troca externa. A prioridade da população, frisou, é a manutenção dos laços com a Dinamarca e a busca — com prudência e autonomia — por um caminho que preserve a integridade política e social da ilha.
As observações de Martinussen chegaram enquanto o ex-presidente norte-americano anunciava em sua plataforma Truth um quadro de entendimento com a NATO relativo à ilha e condicionava a retirada de ameaças de tarifas a posições europeias sobre presença militar em Nuuk. Para o governo groenlandês e para os partidos que defendem a continuidade no Reino da Dinamarca, tais iniciativas soam como movimentos improvisados num tabuleiro estratégico maior, em que ofertas econômicas e pressões diplomáticas convivem com a possibilidade — admitida por analistas — de ações mais coercitivas.
Na leitura que faço como analista de geopolítica, essa troca de mensagens expõe duas dinâmicas: por um lado, a tentativa de reformatar zonas de influência com movimentos directos e simbólicos; por outro, a resiliência de um corpo político que se ancora em instituições de bem-estar e em concepções comunitárias de propriedade. É um confronto entre a lógica de transação imediata e os alicerces de longo prazo da diplomacia local.
Ao recusar a mercantilização da sua terra e ao reafirmar a confiança na Dinamarca, Martinussen traça um curso de preservação: não se trata apenas de proteger recursos, mas de defender um modelo social e um projeto de soberania que, no cálculo fino dos estrategistas, vale mais do que qualquer oferta monetária. Esse é um movimento decisivo no tabuleiro do Ártico — um lembrete de que as tectônicas de poder têm sempre faces materiais e simbólicas.






















