Por Marco Severini, analista sênior de geopolítica — La Via Italia
O presidente francês Emmanuel Macron está promovendo uma mobilização diplomática para coordenar uma resposta europeia às ameaças tarifárias vindas da administração de Donald Trump. Segundo fontes consultadas, Paris prepara um pedido formal, dirigido aos seus homólogos, para acionar o instrumento anti‑coercitivo da UE, mecanismo em vigor desde 2023 mas ainda nunca aplicado.
Em termos estratégicos, trata‑se de um movimento que visa preservar os alicerces das relações transatlânticas e a credibilidade dos acordos comerciais. Auxiliado por uma leitura fria do tabuleiro de poder, Macron considera possível que novos aumentos de díaz norte‑americanos — interpretados pela presidência francesa como instrumentos de pressão política — venham a minar o acordo tarifário alcançado no último verão entre União Europeia e Estados Unidos.
Em Bruxelas, o mecanismo é conhecido como a “opção nuclear”, justamente por representar a última instância de defesa quando o diálogo falha. A lógica é simples, embora grave: se houver evidências de coerção econômica — isto é, uso de tarifas, boicotes ou controles aduaneiros para forçar uma mudança de política na UE ou num Estado‑membro — a União dispõe de um roteiro de contremedidas proporcionais.
Macron pretende, assim, empurrar os parceiros europeus para a consideração dessa ativação, sobretudo diante das tensões em torno da Groenlândia. A ilha — a maior do mundo, com aproximadamente 56 mil habitantes, 90% inuit e 10% de minoria dinamarquesa — voltou ao centro de uma disputa geopolítica, com os Estados Unidos intensificando seu interesse estratégico no Ártico. Fontes indicam que Washington tem ampliado suas ações militares e presença na região, gesto que Paris e outros aliados interpretam como uma tentativa de redefinir zonas de influência.
O mecanismo anti‑coercitivo contempla uma sequência de passos: primeiro, a Comissão Europeia avalia se existe um ato de coercição, propondo ao Conselho uma apreciação formal; em seguida, tenta‑se uma solução diplomática direta com o país visado; caso o diálogo não produza resultados, a UE pode adotar contromedidas econômicas proporcionais — que incluem tarifas, restrições a investimentos diretos estrangeiros (especialmente para empresas com controle estatal), e limites aduaneiros ou de importação/exportação.
Do ponto de vista da estratégia internacional, a escolha de acionar tal instrumento não é apenas uma resposta econômica: é um movimento de arquitetura geopolítica. Trata‑se de desenhar novamente, por meios legais e comerciais, as fronteiras invisíveis da influência. É um lance arriscado no tabuleiro, destinado a sinalizar que a União Europeia não aceitará ser pressionada a abrir mão de suas opções soberanas por meio de sanções econômicas.
Para Paris, a ativação — mesmo que simbólica no início — teria um efeito dissuasor sobre futuras políticas coercitivas. A manobra de Macron também busca consolidar um eixo europeu de resistência, envolvendo países que se mostraram críticos às intenções americanas na região — incluindo na Escandinávia, França, Alemanha, Reino Unido e Países Baixos — e que têm interesse em preservar a estabilidade normativa e comercial no Atlântico Norte e no Ártico.
Nas próximas horas e dias, o que veremos será o jogo diplomático se deslocando das mesas bilaterais para os corredores das instituições de Bruxelas. A decisão final dependerá de evidências claras de coerção e da disposição política dos Estados‑membros de transformar retórica em medidas concretas. Em cada movimento, como num grande jogo de xadrez, calcula‑se não apenas o ganho imediato, mas o posicionamento estratégico de longo prazo.






















