Por Marco Severini — La Via Italia
Entre 1966 e 1991, cerca de 4.500 mulheres Inuit da Groenlândia foram submetidas a procedimentos de esterilização sem consentimento informado, segundo investigações e testemunhos reunidos em ações judiciais coletivas iniciadas em 2023. Em 2025, a República da Dinamarca reconheceu responsabilidade institucional e acordou o pagamento de um indeminizo individual de aproximadamente €40.000 para cada vítima.
Os relatos compilados descrevem implantações de dispositivos intrauterinos, administração de terapias hormonais e intervenções cirúrgicas realizadas sem informação adequada, muitas vezes de forma coercitiva, atingindo sobretudo adolescentes e jovens mulheres. As consequências abarcam danos físicos, infertilidade e traumas psicológicos duradouros, que atravessam gerações e deixam marcas profundas na tessitura social da ilha.
Do ponto de vista institucional, o reconhecimento formal por parte das autoridades de saúde dinamarquesas — que qualificaram o episódio como “um capítulo escuro da nossa história compartilhada” — representa um gesto de responsabilidade, embora incapaz de reparar integralmente as sequelas humanas. O acordo financeiro, por sua vez, constitui um ato concreto de reparação e abre precedentes no âmbito dos direitos humanos e da política colonial tardia.
Esta questão adquire relevo adicional num momento em que a Groenlândia ocupa um papel estratégico crescente na geopolítica do Ártico. A atenção pública internacional e o interesse direto de atores externos — notadamente os Estados Unidos e figuras públicas que tornaram a ilha tema de debates sobre soberania — desenham uma nova tectônica de poder no alto do mundo. Em termos analíticos, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: as feridas internas da sociedade groenlandesa cruzam-se com o interesse geoestratégico por recursos e rotas marítimas árticas.
O programa sistemático descrito pelas vítimas sinaliza práticas de engenharia demográfica que não podem ser dissociadas dos alicerces frágeis da administração colonial e da assimetria de poder entre Copenhague e as comunidades locais. A longa trajetória da ilha — de colônia até sua incorporação ao Reino em 1953, passando pela conquista de autogoverno em 1979 e pelo referendo de 2008 que ampliou competências — contextualiza essas decisões médicas dentro de um processo histórico de supervisão externa sobre corpos e políticas demográficas.
Para a diplomacia e para a estabilidade regional, o entendimento alcançado em 2025 exige mais do que compensação financeira: demanda políticas de reparação cultural, acesso a serviços de saúde sensíveis ao trauma histórico e mecanismos de participação efetiva das comunidades Inuit nas decisões públicas. Sem isso, a indemnização ficará apenas como peça de um mosaico incompleto.
Como analista, observo que esta reparação abre um precedente jurídico e simbólico. No xadrez das relações internacionais, reconhecer uma falha institucional dessa magnitude altera as regras do jogo: cria responsabilidade verificável e impõe à Dinamarca um dever renovado de reconstrução das relações com a Groenlândia, longe do paternalismo e mais próximo de uma parceria de soberanias.
Nota editorial: As cifras e o período temporal referem-se aos dados públicos das ações ajuizadas desde 2023 e ao acordo firmado em 2025. As feridas humanas e as implicações estratégicas transcendem os números e exigem uma abordagem histórica e política sustentada.






















