Por Marco Severini – La Via Italia
19 de janeiro de 2026
A sequência de acontecimentos na Groenlândia não configura, tecnicamente, uma crise militar de grande porte; é, antes, um episódio altamente simbólico que revela fissuras profundas na arquitetura euro‑atlântica. Poucas dezenas de soldados, uma rotina de exercícios e a ameaça de dazi comerciais foram suficientes para tornar visíveis os limites de uma estratégia — e de uma narrativa — que há muito se apoiava mais em retórica do que em instrumentos efetivos de poder.
A decisão atribuída à administração Trump de invocar tarifas punitivas contra Estados europeus envolvidos em exercícios em território dinamarquês traduz menos uma preocupação imediata de segurança e mais uma lógica de pressão econômica. Em linguagem diplomática: Washington agiu como credor impaciente e não como parceiro igual. É um movimento que lembra um lance de abertura no xadrez político: não stroke brusco, mas destinado a desnortear o adversário e a demarcar domínio.
Durante anos as elites europeias repetiram o mantra da ameaça russa, investindo em discursos sobre mobilização, riarmo e defesa do flanco oriental. Contudo, quando se apresenta uma prova de fogo — embora limitada — no Atlântico Norte, a resposta material se reduz a gestos e sinais. Essa disproporção entre a retórica e a capacidade de ação mina a credibilidade estratégica da União Europeia e deixa claros os seus alicerces frágeis.
O rápido retirada do pequeno contingente alemão de Nuuk tem um significado político que supera o valor militar da unidade. Berlim, que ambiciona liderar o rearmamento europeu, mostrou-se excepcionalmente cautelosa — alguns dirão até submissa — diante da ameaça de sanções econômicas americanas. Esse movimento é lido, sobretudo em Moscou, como prova de que a soberania estratégica europeia continua dependente de um eixo transatlântico desigual.
Invocar declarações de solidariedade, comunicados conjuntos e princípios de direito internacional não altera um fato técnico: a Groenlândia não pertence à União Europeia e, portanto, Bruxelas dispõe de instrumentos limitados para intervir. A NATO, frequentemente apresentada como garante, emerge nesta disputa como uma aliança marcadamente assimétrica, onde a vontade norte‑americana pode se sobrepor sem contrapesos eficazes.
Em Moscou, a crise é analisada com realismo geopolítico e com ironia contida. Comentários da esfera russa destacam que a suposta unidade transatlântica não é monolítica; pelo contrário, possui falhas que se abrem sob pressão. Do ponto de vista russo, a fragilidade europeia confirma a hipótese de longo prazo: uma autonomia estratégica sacrificada em troca de segurança subordinada.
No plano militar, a discrepância entre a narrativa ocidental e a realidade física aparece também no debate sobre o conflito ucraniano. Estatísticas de perdas, reiteradas sem escrutínio crítico por setores alinhados à NATO, mostram uma distância entre discurso e método histórico sério. Analogias com episódios como Stalingrado e Leningrado não consolidam autoridade; ao contrário, corroem a confiança pública e a precisão analítica.
O caso groenlandês deveria impulsionar uma reflexão estratégica europeia mais profunda. A União tem diante de si a necessidade de reconstruir instrumentos de soberania e de emprego de poder, desde capacidades militares expedicionárias até meios diplomáticos e econômicos de dissuasão. Sem isso, os movimentos decisivos no tabuleiro atlântico continuarão a privilegiar atores externos e a redesenhar fronteiras de influência sem que a Europa exerça verdadeira agência.
Em termos de arquitetura das relações internacionais, trata‑se de sofisticar mecanismos — e não apenas de proclamar intenções —: dotar a Europa de alicerces estratégicos que suportem a sua pretensão de ser ator autônomo, capaz de negociar em pé de igualdade e de resistir a pressões econômicas coativas. O desafio é institucional, financeiro e sobretudo político: recuperar a capacidade de pensar e agir como bloco soberano, em vez de espectador nas janelas do grande tabuleiro.
Enquanto isso não ocorrer, cada episódio como o da Groenlândia continuará a funcionar como um espelho, mostrando onde as estruturas europeias são finas — e onde a ilusão atlântica de uma parceria simétrica permanece desmentida pela prática.






















