Por Marco Severini — Em uma resposta firme e coordenada, os líderes dos partidos da Groenlândia rejeitaram as declarações do presidente Trump sobre a intenção dos Estados Unidos de assumir o controle da ilha, sublinhando que o destino da região deve ser decidido pelo próprio povo groenlandês. ‘Não queremos ser americanos, não queremos ser dinamarqueses, queremos ser groenlandeses’, afirmaram, em comunicado assinado na noite de sexta-feira por Jens–Frederik Nielsen, Pele Broberg, Múte B. Egede, Aleqa Hammond e Aqqalu C. Jerimiassen.
O documento reafirma que ‘o futuro da Groenlândia deve ser decidido pelo povo groenlandês’ e pede o fim do que define como ‘desprezo dos Estados Unidos pelo nosso país’. Como ator político e social, a liderança local proclama que as questões de soberania e desenvolvimento territorial já são tratadas em diálogo com a população e à luz do direito internacional, ressalvando que ‘nenhum outro Estado pode interferir nesse processo’.
Na semana em que o presidente Trump voltou a declarar sua intenção de adquirir a Groenlândia — região semiautônoma do reino da Dinamarca —, a Casa Branca afirmou que avalia diversas opções, inclusive o uso da força militar. O presidente justificou o movimento como prevenção a aproximações de Moscou ou Pequim, dizendo que pretende proceder ‘com o bem ou com o mal’, sem explicitar mecanismos práticos.
A primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen advertiu que uma tentativa de aquisição por parte dos Estados Unidos poderia abalar os alicerces da NATO. Em prol de evitar uma escalada diplomática, representantes da Dinamarca, da Groenlândia e dos Estados Unidos já se reuniram para avaliar desdobramentos e preservar os canais institucionais.
O posicionamento dos partidos groenlandeses destaca que ‘o trabalho sobre o futuro da Groenlândia se realiza em diálogo com o povo groenlandês e está baseado nas leis internacionais’. ‘Devemos decidir o futuro do nosso país sozinhos, sem pressões que conduzam a decisões apressadas, atrasos ou interferências de potências externas’, afirmam, lembrando ainda as condições demográficas e de defesa: a ilha, embora seja o maior território insular do mundo, tem cerca de 57 mil habitantes e não dispõe de forças armadas próprias; a defesa é garantida pela Dinamarca.
Paralelamente às declarações oficiais, a opinião pública escandinava demonstra inquietação. Um levantamento do instituto Voxmeter, realizado entre 6 e 9 de janeiro com mil entrevistados para os principais jornais dinamarqueses, mostra que quase quatro em cada dez dinamarqueses consideram plausível que os Estados Unidos possam chegar à invasão da Groenlândia durante a presidência de Trump. Do total, 10% dizem-se fortemente convencidos de que Washington poderia agir militarmente, enquanto outros 28,3% julgam a hipótese plausível; 28,6% a consideram improvável.
Na esfera civil e simbólica, proliferou um movimento de boicote contra produtos americanos: o grupo ‘Boykot varer fra USA’ (Boicote aos produtos dos EUA) já reuniu mais de 95 mil aderentes, citando marcas como Coca‑Cola, Heinz, Netflix e Amazon. Trata‑se de um gesto político e cultural que traduz, em escala de consumo, um mecanismo de pressão que visa demonstrar desaprovação e mobilizar a opinião pública contrária a ingerências externas.
Do ponto de vista geopolítico, a sequência de eventos revela um movimento de tectônica de poder onde se rede desenham linhas de influência e segurança no Ártico. A proposta ou a simples alusão de compra por uma grande potência é um movimento decisivo no tabuleiro: revela prioridades estratégicas — rotas marítimas, recursos naturais e postos avançados — que ultrapassam o diálogo bilateral e exigem prudência jurídica e diplomática. Para a Groenlândia, tratar-se-á de escolher entre preservar a autonomia conquistada e gerir a pressão de atores externos que veem na ilha um ponto-chave da arquitetura militar e econômica global.
Enquanto isso, a liderança groenlandesa mantém a postura de quem joga pela segurança institucional: o pedido claro é por respeito à autodeterminação e por que as futuras decisões sejam tomadas a partir dos alicerces democráticos locais, não por aquisições ou transações motivadas por interesses estratégicos alheios.






















