Sandro Gozi, eurodeputado do grupo Renew Europe, reafirmou em entrevista à AGI a proposta de nomear Mario Draghi como enviado especial da União Europeia para dirigir a implementação do chamado Rapporto Draghi sobre a competitividade europeia, iniciativa apresentada também no semanário francês La Tribune junto ao colega Pascal Canfin. ‘Não se trata de uma operação nos bastidores, mas de uma proposta concreta sobre como relançar a Europa, reformar a governança e acelerar a implementação da agenda Draghi’, declarou Gozi.
Segundo o deputado, a iniciativa tem como objetivo enfrentar a insuficiente velocidade de execução das recomendações do relatório, que vão além de medidas estritamente econômicas e financeiras e tocam o funcionamento institucional da União. ‘Dado que o tempo é pouco e que finalmente percebemos um sentido de urgência no Conselho Europeu, poderia ser uma ideia atribuir a Draghi um mandato especial para trabalhar de forma intensa na aceleração da implementação da sua agenda’, explicou Gozi, sublinhando a necessidade de coordenação entre o Conselho Europeu, as capitais dos 27 Estados-membros, o Parlamento Europeu e a Presidência da Comissão, atualmente representada por Ursula von der Leyen.
Gozi recordou que, apesar das propostas do relatório, a sua implementação permanece limitada: ‘Estamos somente em torno de 10-15% das propostas efetivamente executadas’, disse, argumentando que ter o próprio Mario Draghi encarnando formalmente a responsabilidade pela execução poderia desbloquear um ritmo mais célere. A ideia, segundo o eurodeputado, não exclui outras soluções, mas oferece um mecanismo de impulso concentrado face à urgência política e estratégica.
Quanto às críticas de que a nomeação de um enviado especial poderia representar uma fragmentação institucional ou um sinal de incapacidade das instituições em levar adiante a agenda, Gozi foi taxativo: ‘Seria um agente interno de alto nível institucional, de grande respeito e influência dentro das três instituições; faria sentido que ele próprio coordenasse e trabalhasse para impulsionar a implementação do relatório’. Trata-se, portanto, de uma proposta que aposta na autoridade pessoal e na familiaridade de Draghi com a arquitetura europeia para superar bloqueios.
O parlamentar lembrou também que, em outubro de 2025, o Parlamento Europeu aprovou por larga maioria o denominado ‘Rapporto Gozi’, cujo conteúdo aponta, entre outros pontos relevantes, para a necessidade de ultrapassar a unanimidade em favor do recurso maioritário qualificado em áreas-chave. Essa mudança processual é vista por seus proponentes como essencial para dinamizar reformas que hoje ficam à mercê de vetos nacionais.
Na análise de Gozi, a conjuntura política faz emergir uma criatividade institucional antes pouco evocada: ‘O facto de finalmente a própria presidente von der Leyen e outros líderes no Conselho começarem a admitir que os vetos bloqueiam a implementação da agenda Draghi, por exemplo para a união de capitais ou um regime específico para PME, abre espaço para instrumentos como a cooperação reforçada — um grupo de pelo menos nove países pode prosseguir sem esperar os demais’. Este instrumento, antes considerado um tabu, reaparece como uma ferramenta pragmática diante da urgência.
Como analista, vejo nesta proposição um movimento decisivo no tabuleiro: concentrar responsabilidade e autoridade numa figura reconhecida pode funcionar como um lance disruptivo para destravar a arquitetura das decisões europeias. No entanto, também altera alicerces frágeis da diplomacia institucional, exigindo habilidade para não provocar atritos desnecessários entre instituições e capitais.
Em termos práticos, a proposta de nomear Mario Draghi como enviado especial é uma peça estratégica entre outras possíveis jogadas — uma tentativa de redesenhar fronteiras invisíveis da governança europeia para que a tectônica de poder se mova em favor da ação mais rápida e coordenada. Resta observar se o Conselho Europeu aceitará explorar este caminho ou se acolherá soluções alternativas que preservem uma execução mais fragmentada, porém menos dependente de um único emissário.
Marco Severini, especialista em geopolítica e estratégia internacional, Espresso Italia.






















