Por Marco Severini – Espresso Italia
Uma proposta empresarial apresentada a autoridades americanas colocou no centro de um movimento diplomático e comercial um pacote que redesenha, em minutos, fragmentos do tabuleiro geopolítico no Oriente Médio. A empresa estadunidense Gothams LLC, especializada em resposta a desastres, ofereceu-se para gerir um sistema de transporte e logística para a reconstrução da Gaza sob os planos do denominado Board of Peace, órgão promovido pelo presidente Donald Trump.
Os documentos consultados, datados de novembro, descrevem termos que soam mais como uma arquitetura de rentabilidade do que como um contrato humanitário: a proposta prevê uma margem de lucro de 300%, cobrança por cada caminhão que ingresse na Faixa de Gaza e tarifas adicionais para o uso dos sistemas de armazenagem e distribuição operados pela empresa. Ademais, a Gothams LLC solicita exclusividade operacional por um monopólio de 7 anos, com opção de prorrogação por mais três anos, assegurando um retorno mínimo equivalente a três vezes o capital investido.
Informações adicionais ligam a companhia ao seu fundador, Matt Michelsen, identificado em documentos como figura central na elaboração do modelo logístico proposto — o mesmo Michelsen que ganhou notoriedade interna por projetos controversos, incluindo o denominado Alligator Alcatraz, uma concepção de recinto de alta segurança que chegou a ser anunciada e posteriormente retirada. Contratados da Gothams LLC também teriam experiência prévia com a Gaza Humanitarian Foundation (GhF), o que cria um entrelaçamento entre atores privados já presentes na esfera da ajuda à Faixa.
O cenário político em que essa oferta surge é igualmente relevante. O Board of Peace foi idealizado para supervisionar a transição pós-bélica e a reconstrução de Gaza nos termos da resolução ONU 2803/2025, que autoriza um papel internacional na governança e na distribuição de ajuda. A proposta da Gothams, portanto, não é apenas um contrato comercial: é um movimento que pode influenciar a distribuição de poder e recursos em um território devastado.
Críticos na área de contratações federais apontaram imediatamente para a proposta como um potencial “racket rodoviário”, observando que, em mais de dois séculos de contratos governamentais dos Estados Unidos, raramente se exigiu um retorno tão elevado sobre investimentos destinados a operações logísticas humanitárias. A analogia é útil: trata-se de mover peças sobre um tabuleiro onde o alinhamento entre lucro e missão pública pode tornar-se um ponto de fricção institucional.
Em pano de fundo, há sinais políticos importantes: na recente reunião entre Donald Trump e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em Mar-a-Lago, Trump declarou que a reconstrução de Gaza “começará em breve” e enfatizou a necessidade de desarmar o Hamas — posicionamentos que fomentam pressões para acelerar iniciativas sobre o terreno.
Além das implicações comerciais e humanitárias, a proposta levanta questões estratégicas sobre controle de cadeias logísticas críticas, possíveis vínculos com empresas de tecnologia e vigilância e o papel de atores privados em zonas pós-conflito. Para além dos números, estamos diante de um movimento que pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência: quem controla as rotas de suprimento acaba por condicionar decisões políticas e sociais na própria Gaza.
Do ponto de vista da diplomacia prática, a oferta da Gothams LLC exige uma análise que transcenda contratos e planilhas. É imprescindível avaliar riscos de monopólio sobre infraestruturas sensíveis, mecanismos de governança internacional previstos pela resolução ONU 2803/2025 e salvaguardas para que a reconstrução não se transforme em mecanismo de captura econômica. Em termos de estratégia, este é um movimento decisivo no tabuleiro: exigirá contrajogadas prudentes por parte de governos e organizações multilaterais para preservar a legitimidade e a eficácia do esforço de recuperação humanitária.
Enquanto Washington discute formas de implementar o Board of Peace, a proposta da Gothams LLC — com sua combinação de lucro elevado, exclusividade prolongada e histórico de projetos controversos — permanecerá como um teste de princípios entre interesse público e iniciativa privada em uma das arenas mais sensíveis da política internacional.






















