Por Marco Severini — Em mais um movimento que reconfigura discretamente o mapa do luxo global, o apartamento assinado por Giorgio Armani no número 760 Madison Avenue, no coração do Upper East Side, foi oficialmente colocado à venda por US$10 milhões (cerca de €9,3 milhões). A oferta diz respeito a um pied-à-terre concebido como extensão do universo estético do estilista, situado diretamente acima da histórica boutique monomarca e pensado em cada detalhe pelo próprio Armani.
Embora dotado do prestígio inerente à Madison Avenue, o imóvel nunca foi residência habitual do estilista. Trata-se, antes, de uma peça representativa — uma casa de promoção da marca que traduz o conceito do Made in Italy num ambiente residencial localizado em Manhattan. A unidade localiza-se no sexto andar do complexo Armani Residences e ocupa mais de 180 metros quadrados, com pé-direito que ultrapassa os três metros e amplas vedações envidraçadas que desenham uma vista panorâmica sobre o skyline nova-iorquino.
Os acabamentos evidenciam uma disciplina estética: parquet em carvalho branco americano que confere calor e luminosidade, superfícies de pedra polida nas bancadas e uma cozinha equipada com eletrodomésticos de última geração. O apartamento dispõe de duas suítes principais, dois banheiros completos e um lavabo de serviço. O amplo salão de mais de 46 m² é acessado por um elevador semi-privado, detalhe que reforça a privacidade e o caráter exclusivo da morada.
Viver no 760 Madison Avenue não é somente possuir uma unidade imobiliária; é ingressar num clube restrito. As despesas de manutenção mensais, na casa dos US$6.695, dão acesso a um conjunto de serviços de luxo — spa privado, academia de última geração, lounge com terraço panorâmico e uma sala de chá com estética zen. A peculiaridade da oferta reside na sala de chá, que conta com serviço de catering provido pelo restaurante Armani, permitindo aos residentes experimentar as referências culinárias do brand sem sair do prédio.
Do ponto de vista geoestratégico e patrimonial, a venda representa mais uma peça movida no tabuleiro: a unidade faz parte de um conjunto original de dez residências que constituíam o portfólio imobiliário do estilista. A alienação de mais esse ativo reduz um pouco do patrimônio privado que serviu, ao longo de décadas, como vitrine e instrumento de soft power cultural. Para o comprador que venha a assumir o imóvel, trata-se do privilégio de habitar o último projeto residencial do estilista na Grande Maçã — um gesto simbólico que combina prestígio e acervo emocional.
Como analista, vejo nesta transação um exemplo da tectônica de poder entre marca e território: Armani mantém a sua influência sobre a paisagem urbana de Manhattan não apenas com roupas, mas com arquitetura e habitação. O imóvel em si funciona como uma extensão do atelier — um movimento decisivo no tabuleiro da imagem global, onde cada peça imobiliária representa um alicerce frágil e, simultaneamente, estratégico da diplomacia cultural do luxo.
Em resumo, a venda do apartamento de Giorgio Armani na Madison Avenue é mais do que uma operação imobiliária; é um redesenho discreto de fronteiras invisíveis entre marca, cidade e poder simbólico.





















