Por Marco Severini — Genebra volta a assumir o papel de cruzamento diplomático no palco internacional. O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, desembarcou na cidade suíça para o segundo ciclo de negociações com os Estados Unidos, programado para amanhã, informou a televisão estatal iraniana. A agenda genevense inclui encontros bilaterais previstos com os chanceleres da Suíça e de Omã, além de uma reunião com o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: Genebra oferece um terreno neutro para testar compromissos e medir sinais de reciprocidade sem que os atores se exponham a uma mesa pública. Nas palavras do vice-ministro iraniano Majid Takht-Ravanchi, em entrevista à BBC, Teerã estaria disposto a considerar concessões sobre seus estoques de urânio caso Washington proceda com a revogação das sanções: “Se vermos sinceridade da parte deles, tenho certeza de que estaremos no caminho para alcançar um acordo”, declarou.
Do lado iraniano, o vice-ministro para diplomacia econômica, Hamid Ghanbari, indicou que no leque de propostas tramadas em Genebra figuram benefícios mútuos, com foco em setores concretos como aviação, minerais e petróleo e gás. “Os interesses comuns em campos petrolíferos e de gás, investimentos minerários e até a aquisição de aeronaves estão incluídos nas negociações”, afirmou Ghanbari, segundo a agência Fars. Essa ênfase econômica revela que as conversas não se limitam à segurança nuclear, mas visam redesenhar vínculos comerciais — os alicerces que sustentam qualquer retomada de normalidade.
Pela parte americana, a delegação em Genebra inclui o principal enviado do presidente Donald Trump, Steve Witkoff, e o genro presidencial, Jared Kushner. Após as conversações com o Irã, Witkoff e Kushner devem permanecer na cidade para participar, sob mediação dos EUA, dos diálogos entre Rússia e Ucrânia. A simultaneidade dos dois processos em Genebra não é casual: trata-se de uma tentativa de Washington de orquestrar várias frentes de normalização, controlando assim um conjunto de variáveis que podem alterar a tectônica de poder regional.
As negociações em curso retomaram-se em Muscat no dia 6 de fevereiro, meses após o fracasso de rodadas anteriores provocadas por uma escalada em junho passado — quando Israel lançou uma campanha de bombardeios contra alvos iranianos que desembocou numa guerra de 12 dias. Naquele episódio, os Estados Unidos intervieram com ataques direcionados a instalações nucleares iranianas. O Irã declarou que as conversações em Genebra seriam “indiretas”, repetindo o formato utilizado no Oman. Contudo, o clima permanece tenso: Washington já ameaçou Teerã com ações militares e deslocou um grupo de porta-aviões para a região em resposta à repressão letal das manifestações antigovernamentais no Irã ocorrida no mês passado.
Como analista, vejo em Genebra um tabuleiro onde cada movimento é calculado. Os riscos são reais — incêndios geopolíticos recentes mostram que pequenas fagulhas podem provocar convulsões regionais —, mas também existe uma janela para reconstruir confiança através de gestos comerciais e verificações técnicas, com a AIEA no papel de árbitro técnico. O desafio será transformar sinais de boa vontade em compromissos verificáveis, preservando ao mesmo tempo o equilíbrio de poder que sustenta a segurança europeia e do Oriente Médio.
Genebra, por sua vez, mantém seu estatuto: um ponto de encontro onde arquitetos da diplomacia tentam, com peças delicadas, redesenhar fronteiras invisíveis e restaurar a previsibilidade entre atores que operam num cenário de pressão extrema.






















