Por Marco Severini — Em um movimento calculado, digno de um final de partida em que cada peça é preservada para o próximo lance, Ghislaine Maxwell invocou o Quinto Emendamento — “I plead the Fifth” — e optou por permanecer em silêncio durante sua depoimento, na segunda‑feira, diante de uma comissão de vigilância do Congresso dos Estados Unidos.
Ex‑sócia e antiga companheira de uma das figuras mais nefastas da cena financeira e predatória dos EUA, Jeffrey Epstein, Maxwell carrega um inventário de segredos cuja magnitude reverbera muito além dos limites das celas que a contêm. Condenada em 2021 por facilitar o esquema de exploração sexual de menores ligado a Epstein, ela cumpre parte dos 20 anos de pena a que foi sentenciada.
A comissão democrata apresentou um conjunto de perguntas diretas — sobre quatro supostos co‑conspiradores, sobre uma lista de 25 homens apontados como abusadores em locais como a ilha privada de Epstein, Little St. James, o rancho no Novo México e a residência em Nova York — e também sobre a existência de nomes poderosos que teriam sido beneficiados pelo circuito criminoso.
Entre as indagações mais sensíveis estava se ela ou Epstein chegaram a organizar ou facilitar acesso a jovens a figuras como Donald Trump, se havia uma lista de clientes, e se Maxwell chegou a fornecer informações ou trabalhar em favor de governos ou serviços de inteligência estrangeiros, citando explicitamente potências como Rússia e Israel. À pergunta, Maxwell respondeu com o silêncio legalmente protegido.
O episódio reacende críticas direcionadas ao Departamento de Justiça. Parlamentares democratas acusam o DOJ, então sob influências internas e políticas, de ter conduzido a investigação de maneira deficitária — um eufemismo frente ao fato de que, até agora, apenas Maxwell está encarcerada de forma duradoura. Documentos mostram que, após uma conversa entre Maxwell e o vice‑procurador‑geral Todd Blanche, foi autorizado o traslado de sua prisão na Flórida para um campo prisional de mínima segurança em Bryan, Texas. Paralelamente, prosperam nas rodas políticas rumores sobre a possibilidade de indulto ou comutação por parte do então presidente, cujo nome surge reiteradamente nos arquivos relacionados a Epstein.
Na esfera íntima de Epstein, outra figura notória é a dentista bielorrussa Karyna Shuliak, companheira nos últimos anos de vida do financista — não casada e até aqui não acusada de crimes. Porém, o fio condutor que atravessa a história de Ghislaine aponta para a sombra paterna: Robert Maxwell, magnata do jornalismo britânico e proprietário do Daily Mirror, cuja trajetória começa como Jan Ludvík Hyman Binyamin Hoch no território que então fazia parte da Checoslováquia, em 1923. Filho de origem judaica e de origem humilde, tornou‑se uma figura central na arquitetura política do Reino Unido, inclusive como membro do Parlamento pelo Partido Trabalhista entre 1964 e 1970.
Robert Maxwell morreu em circunstâncias misteriosas em 1991, ao desaparecer do iate em alto mar — um episódio que alimentou décadas de teorias sobre sua ligação com serviços de inteligência, supostamente envolvendo MI6, KGB e até o Mossad. A biografia e as suspeitas em torno do patriarca ajudam a compor o mosaico que cerca a trajetória de sua filha: alicerces frágeis da diplomacia, redes de influência que atravessam fronteiras invisíveis e uma tectônica de poder que insiste em redesenhar‑se na sombra.
Do ponto de vista estratégico, o episódio do silêncio de Maxwell é um movimento defensivo, destinado a preservar opções futuras e a mitigar exposição de terceiros — uma jogada clássica no tabuleiro onde interesses privados, segredos de Estado e interesses políticos se entrelaçam. A pergunta que permanece é quais serão os próximos lances das instituições americanas e como esse caso continuará a redesenhar — de forma discreta e persistente — os contornos da influência internacional.





















