Generali, por meio da sua fundação The Human Safety Net, e a artista Marinella Senatore formalizam uma aliança cultural que traduz em prática a ideia de arte como instrumento de coesão social. O projeto We Rise by Lifting Others — apresentado no contexto da 61ª Biennale Arte di Venezia — não é apenas uma obra exposta: é um verdadeiro programa de ativação comunitária que coloca famílias com crianças entre 0 e 6 anos no centro de um processo criativo e transformador.
Como analista de geopolítica cultural, vejo neste movimento um gesto calculado sobre o tabuleiro da influência suave: instituições financeiras que reassentam seu capital simbólico em torno de projetos sociais e artísticos, redesenhando, de forma sutil, os alicerces da diplomacia pública. The Human Safety Net opera hoje como uma rede aberta e inclusiva com a participação de 85 ONGs em 25 países, e atua através de dois braços principais — os programas Per le Famiglie (Para as Famílias) e Per i Rifugiati (Para os Refugiados) — com foco em liberar potencial humano em contextos de vulnerabilidade.
O caráter estratégico do trabalho é evidente: o programa para famílias acompanha pais e mães na primeira infância, fase em que, segundo evidências neurocientíficas amplamente divulgadas, o cérebro infantil estabelece mais de um milhão de novas conexões neurais por segundo. Ao prover recursos, orientação e acesso a redes de apoio, a fundação busca consolidar ambientes domésticos seguros e resilientes — condições essenciais para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças.
No mesmo espírito, Marinella Senatore optou por partilhar autoria, desenhando um percurso onde a comunidade participa ativamente da criação. We Rise by Lifting Others percorre três cidades: Varsóvia, Mestre e Palermo, com oficinas que combinam escrita, leitura e movimento. Essas atividades não são meramente preparatórias para a peça final: constituem momentos de encontro e de reconstrução de capital social, gavetas onde se ensaiam novas formas de cuidado coletivo.
O lançamento em Varsóvia, nos dias 9 e 10 de dezembro, envolveu a ONG local Ta Szansa, parceira fundamental do programa Per le Famiglie. A etapa seguinte realizou-se em Mestre, em parceria com o Istituto Casa Famiglia San Pio X, no início de janeiro. A próxima parada está planejada para Palermo, com ações no Centro per la Salute delle Bambine e dei Bambini. Em cada polo, os workshops servem simultaneamente como laboratório artístico e como um espaço terapêutico e de capacitação parental.
Do ponto de vista simbólico e estratégico, a presença do projeto na Bienal de Veneza — um dos palcos mais visíveis da arte contemporânea — funciona como uma torre de observação: a obra amplifica vozes frequentemente marginalizadas e reverbera uma narrativa onde a responsabilidade social corporativa se transforma em cultura pública tangível. É um movimento que reconfigura, com delicadeza mas com decisão, as frentes de influência entre setor privado, sociedade civil e esfera artística.
Participar não é apenas um métier da criação; é republicanizar o ato estético, transformar espectadores em coautores e, sobretudo, materializar um princípio estratégico — levantar os outros como forma de elevar uma comunidade inteira. Em termos de política cultural e de impacto social, We Rise by Lifting Others é um exemplo contemporâneo de como o soft power institucional pode se harmonizar com práticas artísticas participativas para produzir efeitos duradouros na tessitura social.
Enquanto os laboratórios prosseguem, resta observar como essa iniciativa será traduzida na obra exposta em Veneza e qual será o legado prático nas comunidades envolvidas. Em um tabuleiro global onde as influências se movem como peças de xadrez, projetos assim representam um lance que busca consolidar um xeque-mate cultural: fortalecer a base para garantir estabilidade nas camadas sociais mais frágeis.






















