Genebra torna-se novamente palco de um movimento decisivo no grande tabuleiro das relações internacionais: a delegação da Ucrânia partiu rumo à cidade suíça para participar, amanhã, de um novo ciclo de negociações trilaterais com representantes dos EUA e da Rússia. A partida, anunciada nos últimos dias por figuras centrais de Kiev e Moscou, ocorre em um ambiente político e midiático tenso, onde a retórica militar e diplomática caminha lado a lado com os objetivos estratégicos de poder.
Kyrylo Budanov, chefe do gabinete do presidente Zelensky, confirmou a saída da delegação: “Rumo a Genebra. O próximo round de negociações está às portas. No caminho, discutiremos as lições da nossa história e buscaremos conclusões adequadas. Os interesses da Ucrânia devem ser salvaguardados”, escreveu Budanov em suas redes.
Do lado russo, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, elevou a temperatura discursiva ao qualificar o atual governo de Kiev como “uma célula terrorista internacional neonazista”. Trata-se de uma narrativa que Moscou tem usado periodicamente para moldar a perceção internacional e domestica sobre o conflito. Já o Kremlin, por meio do porta-voz Dmitry Peskov, oficializou a existência de um acordo para realizar a próxima rodada “na próxima semana”, sem ainda precisar detalhes sobre a logística e a agenda final.
Em paralelo, o presidente Zelensky buscou reforço diplomático: reuniu-se em Munique com o secretário de Estado americano Marco Rubio e manteve contatos telefônicos com enviados dos EUA, incluindo Steve Witkoff e Jared Kushner — interlocutores que, na leitura de bastidores, articulam garantias políticas e termos de pressão que o governo americano tem alinhado com Kiev.
Outro elemento relevante é a pressão política em torno do calendário institucional ucraniano. Fontes apontam que a administração americana desejaria ver as eleições presidenciais e um eventual referendo sobre a paz realizados até 15 de maio, com um anúncio formal previsto para 24 de fevereiro — um cronograma que combina objetivos de legitimação interna com sinais ao eleitorado externo, em especial ao que acontece na arena política dos EUA, onde o tema ucraniano é parte do jogo eleitoral.
No mesmo compasso, vozes da Aliança Atlântica, como o primeiro-ministro holandês Mark Rutte, mantêm postura crítica contra Moscou. Em Munique, Rutte evocou a imagem do “urso russo” avançando como “uma lesma”, conclamando a fazer mais em favor de Kiev. É uma metáfora que expõe tanto a frustração quanto o cálculo de custo político dos aliados ocidentais.
Do ponto de vista analítico, o encontro em Genebra operacionaliza duas dinâmicas: por um lado, a busca por um desfecho negociado que contenha custos militares e preserve espaço político para as lideranças; por outro, o desejo das potências de converter ganhos diplomáticos em vantagens estratégicas e simbólicas. Em termos de xadrez geopolítico, cada delegação desloca peças visando não apenas o cessar-fogo imediato, mas a configuração dos alicerces futuros de segurança — linhas que desenharão uma tectônica de poder pelo menos para a próxima década.
É preciso, contudo, separar o substantivo dos adjetivos: as acusações mútuas, a propaganda e os relatos de campo compõem a disputa narrativa, mas a mesa de negociações exige linguagem de garantias, verificabilidade e reciprocidade. Seja qual for o resultado em Genebra, ele será reflexo de um equilíbrio volátil entre interesses nacionais, pressões eleitorais, e a capacidade das potências de traduzirem vantagens de curto prazo em estabilidade duradoura.
Enquanto as delegações se acomodam para os próximos movimentos diplomáticos, o mundo observa: não se trata apenas de encerrar hostilidades, mas de redesenhar fronteiras invisíveis de influência e credibilidade. Em um tabuleiro onde a informação é tão relevante quanto a logística militar, a próxima rodada em Genebra pode conservar a paz ou apenas redesenhar o traçado da próxima batalha política.






















