Por Marco Severini — Em Genebra prosseguem negociações de alto risco entre delegações do Irã e dos EUA, num cenário onde a estabilidade regional e as linhas de influência global são reposicionadas com cuidado. Fontes oficiais iranianas descrevem as conversas como «serias e intensas», e o terceiro ciclo de negociação concentra-se exclusivamente na dimensão nuclear e na eventual revogação das sanções estadunidenses.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, afirmou que o objetivo central é preservar o direito iraniano ao «uso pacífico da energia nuclear», enquanto Teerã buscará garantias concretas sobre a remoção das medidas punitivas. A delegação iraniana formalizou suas posições junto ao ministro das Relações Exteriores de Omã, que media os contatos, refletindo uma coreografia diplomática cuidadosamente montada.
Na retórica interna, um conselheiro próximo ao líder supremo, Ali Shamkhani, declarou que, se o núcleo das conversas for impedir o Irã de desenvolver armas nucleares, isso estaria alinhado com a fatwa religiosa e com a doutrina defensiva do país — e, segundo ele, “um acordo imediato está ao alcance”. Shamkhani também sublinhou que Abbas Araghchi, principal negociador iraniano em Genebra, dispõe de autoridade e apoio suficientes para selar um pacto.
Do lado norte-americano, a delegação conduzida por Steve Witkoff e Jared Kushner apresentou demandas claras e duras: o desmantelamento dos principais complexos nucleares e um compromisso de encerramento permanente do enriquecimento de urânio. Em contrapartida, Teerã propõe um congelamento temporário — estimado entre três e cinco anos, e possivelmente além do mandato de Trump — acompanhado da adesão a um consórcio regional para produção de urânio com baixo teor, sem aplicabilidade militar. Inspeções internacionais e mecanismos de verificação entram como componente essencial de qualquer acordo.
Permanece a incógnita sobre a compatibilidade das posições: estão as margens de negociação suficientemente próximas para avançar diplomaticamente, ou serão essas lacunas que permitirão ao presidente Trump justificar alternativas coercitivas, incluindo ações militares? No início das conversas, representantes dos EUA reconheceram não ter ainda uma visão definitiva sobre detalhes-chave da proposta iraniana. Há dúvidas quanto à disposição final da liderança suprema do Irã em autorizar concessões — a figura que detém a última palavra no tabuleiro político interno.
Teerã calcula, estrategicamente, que qualquer compromisso deverá permitir a Trump apresentar uma vitória política que supere em força simbólica o acordo da era Obama, do qual ele se afastou no passado. Por isso, além das cláusulas técnicas, há discussões de cunho econômico: possibilidade de acesso controlado a recursos energéticos iranianos e compromissos comerciais que possam ser apresentados como contrapartidas palpáveis.
O presidente Masoud Pezeshkian reiterou publicamente que o Irã “não busca de modo algum uma arma nuclear” — uma afirmação que visa consolidar a natureza civil do programa e a aceitabilidade internacional das medidas de verificação.
Em termos geoestratégicos, este rodada de Genebra é um movimento decisivo no tabuleiro: define não apenas parâmetros técnicos sobre enriquecimento, mas também recalibra alicerces frágilmente assentados da diplomacia entre potências. A tectônica de poder que se desenha pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência no Oriente Médio; o resultado dependerá da habilidade das delegações em converter concessões técnicas em ganhos políticos palpáveis para seus respectivos líderes.
Enquanto os negociadores trabalham, permanece a necessidade de paciência e precisão — como numa partida de xadrez de alto nível, onde um lance precipitado pode encadear consequências estratégicas irreversíveis.






















