Por Marco Severini — Em uma leitura clínico-estratégica dos últimos anos do conflito em Gaza, surgem dados que redesenham a compreensão sobre a composição internacional das forças israelenses. Documentos obtidos por meio de um pedido de acesso à informação em Israel, com atualização até março de 2025, revelam que mais de 50 mil militares do IDF possuíam dupla cidadania ou múltiplas nacionalidades e serviram durante a campanha entre 2023 e 2025.
O contingente mais expressivo é o formado por cidadãos com passaporte israelense e estadunidense: foram contabilizados 12.135 soldados israelo-americanos, aos quais se somam 1.207 registrados em uma categoria de cidadania múltipla. Em seguida aparecem os israelenses com laços franceses (6.127 + 337), russos (5.067 + 102) e ucranianos (3.901 + 292). A Alemanha também figura de forma relevante com 1.668 mais 149 em categoria múltipla. Entre as nacionalidades ocidentais, o Reino Unido destaca-se por abrigar, nos registros do IDF, 1.686 militares com dupla cidadania britânica-israelense e outros 383 com passaportes britânico, israelense e terceira nacionalidade — um total que ultrapassa 2.000 cidadãos britânicos.
Os números brasileiros não figuram entre os maiores contingentes; porém vale notar a presença italiana: cerca de 900 militares registrados como israelo-italianos integraram as fileiras. Esses dados não apenas quantificam um fenômeno demográfico-militar, mas apontam para implicações diplomáticas e jurídicas que atravessam fronteiras — do escrutínio público a eventuais investigações por violações do direito internacional.
Em paralelo às estatísticas sobre pessoal, relatórios e investigações jornalísticas têm revelado contextos de cooperação operacional entre aliados. Por exemplo, levantamentos apontam que o Reino Unido realizou 739 voos de vigilância sobre a Faixa de Gaza entre 2023 e 2025, dados que alimentaram debates sobre compartilhamento de inteligência e possíveis responsabilidades legais por cumplicidade em operações que causaram danos a civis.
Historicamente, o IDF nasceu da confluência de organizações paramilitares que constituíram o alicerce das forças do Estado israelense; hoje, no tabuleiro global, a presença numerosa de combatentes com múltiplas nacionalidades constitui um novo movimento estratégico — um redimensionamento das linhas de influência e exposição dos Estados de cidadania de origem.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de uma tectônica de poder que impõe escolhas difíceis aos países de origem desses combatentes. Autoridades em Londres e em outras capitais já enfrentam pressão por esclarecimentos e, em alguns casos, por investigações sobre a eventual participação de seus cidadãos em crimes de guerra ou em atos que possam configurar cumplicidade com práticas condenadas pelo direito internacional.
Minha leitura, como analista, é que estamos diante de um movimento que exige uma resposta coordenada: transparência documental, avaliação jurídica e uma diplomacia arquitetada para reduzir riscos de escalada política. Num sentido estratégico, a multiplicidade de passaportes entre combatentes funciona como um espelho — revela ligações transnacionais que podem ser manobras de projeção de poder ou fragilidades que afetam a solidez das alianças.
No jogo de xadrez das relações internacionais, esses números são jogadas que obrigam governos e tribunais a reposicionar peças. A investigação factual e a clareza sobre responsabilidades serão fundamentais para preservar os alicerces frágeis da diplomacia e para evitar que o conflito em Gaza continue a redesenhar fronteiras invisíveis no direito e na política global.






















