Por Marco Severini — Em mais um movimento delicado no tabuleiro institucional francês, o ministro do Interior Laurent Nunez anunciou que não irá solicitar o veto à marcha prevista para este sábado em Lyon, em homenagem a Quentin Deranque, o estudante nacionalista espancado até a morte na semana passada. A decisão, tomada com vocabulário técnico e ponderado, reflete a tentativa do governo de calibrar a tensão entre ordem pública e liberdade de expressão.
Em entrevista à rádio RTL, o ministro estimou que o ato mobilizará entre “2 mil e 3 mil pessoas”, em sua maioria ligadas à “extrema direita”, e disse que a marcha ocorrerá sob uma “presença policial muito significativa” para garantir a segurança. A opção pela supervisão em vez do veto foi justificada por Nunez como uma obrigação de Estado: “Posso proibir uma manifestação apenas quando existe um risco significativo de distúrbios públicos e eu não seja capaz de contê-los. Portanto, não peço a proibição desta manifestação, que será realizada sob vigilância”, declarou.
O pronunciamento do ministro contrapõe-se ao apelo do prefeito de Lyon, Grégory Doucet, do Partido Verde, que havia solicitado a proibição, citando “riscos comprovados de distúrbios públicos”. Para Nunez, o equilíbrio necessário é sutil: “Meu papel é encontrar um equilíbrio entre a manutenção da ordem pública e a liberdade de expressão. Por ora, a liberdade é mais importante do que a ansiedade”, acrescentou, numa fórmula que revela a prioridade constitucional sobre impulsos cautelares.
Questionado sobre a possibilidade de que Quentin Deranque tenha sido vítima de uma emboscada, o ministro afirmou que, pessoalmente, não se convenceu dessa hipótese. Segundo Nunez, tratou-se de “uma rixa entre dois grupos que terminou em homicídio voluntário, um linchamento, o que é absolutamente abominável”. A descrição é direta e mantém o foco nos fatos formais do inquérito, em vez de ceder à especulação pública.
As autoridades judiciais de Lyon informaram que seis homens foram formalmente acusados de homicídio voluntário e um outro de cumplicidade pela morte do jovem de 23 anos. Entre os acusados detidos por suspeita de homicídio está um colaborador próximo do deputado do movimento La France Insoumise (LFI), Raphaël Arnault: Adrian Besseyre, 25 anos, que teria trabalhado na equipe do parlamentar até poucos dias antes do ataque, segundo declarou seu advogado Benoît Courtin.
Outro assistente parlamentar de Arnault, Jacques-Élie Favrot, também de 25 anos, foi acusado de cumplicidade. Seu advogado, Bertrand Sayn, afirmou que Favrot “não desferiu nenhum golpe direto que pudesse ter causado a morte” e que ele declarou ao juiz que não se tratou de uma emboscada, mas de um confronto com um grupo de ativistas de extrema direita.
Fontes próximas às investigações indicam que os sete suspeitos, de idades entre 20 e 26 anos, são conhecidos por serem membros ou próximos da Jeune Garde, um movimento de extrema esquerda fundado em Lyon em 2018 e dissolvido em junho de 2025. As detenções ocorreram entre terça-feira à noite e quarta-feira; informações adicionais sobre os interrogatórios e as recusas registradas pelos detidos ainda são objeto de apuração.
Na lente analítica que privilegia a estabilidade estratégica, a decisão de não proibir a marcha é um movimento calculado: protege prerrogativas democráticas enquanto expõe o Estado ao risco de confrontos e à necessidade de mobilizar um dispositivo de segurança ampliado. O cenário em Lyon permanece tenso — uma pequena tectônica de poder que exige, nos bastidores, mão firme e coordenação estreita entre justiça, polícia e autoridades locais.






















