Por Marco Severini — Uma iniciativa concebida com propósito inclusivo transformou-se num dilema institucional que expõe os limites de sistemas fundados na confiança. Desde outubro de 2025, a Universidade de Limoges, na Alta Vienne, centro da França, passou a oferecer um congedo mestruale que autoriza até dez dias de ausência por ano a pessoas afetadas por dores relacionadas ao ciclo menstrual, sem necessidade de apresentação de atestado médico.
O dispositivo foi desenhado para evitar estigmas e acolher também pessoas em transição de gênero que, embora se identifiquem como homens, podem biologicamente continuar a menstruar. Contudo, a abertura generalizada — disponibilizando o benefício a todos os estudantes — acabou gerando um efeito adverso: cerca de 50 estudantes do sexo masculino usufruíram do direito, resultando em aproximadamente 600 dias de ausência em apenas três meses.
O episódio reacendeu o debate público. Em entrevista à RMC, a comentarista Joelle Dago-Serry qualificou a situação como “uma rapina”, lembrando que a dor menstrual pode implicar sintomas severos como dores lombares, náuseas e enxaquecas. “Não é uma brincadeira”, afirmou ela, diagnosticada com endometriose, qualificando o uso indevido como “um insulto às mulheres” e defendendo que a questão não é discriminação, mas “realidade biológica”.
Do lado administrativo, Raphael Jamier, vice-presidente da universidade, reconheceu ao jornal Le Parisien as dificuldades de gerir um sistema tão aberto: um mecanismo de confiança tornou-se vulnerável a abusos práticos. Em paralelo, ainda que a abertura tenha sido motivada por princípios de inclusão, a instituição recebeu críticas e pedidos de revisão das regras, inclusive a sugestão de exigir atestado médico como contrapeso.
Os dados de saúde contextualizam a decisão original: estudo do Inserm, publicado em outubro de 2023, aponta que 90% das mulheres entre 18 e 49 anos relatam dor durante o ciclo, sendo que 40% descrevem dor de moderada a severa intensidade. Estima-se também que cerca de dois milhões de mulheres na França convivam com endometriose, uma patologia crônica frequentemente incapacitante.
Por ora, a Universidade de Limoges mantém o congedo mestruale. Em e-mail aos estudantes, a instituição reiterou que “quem, biologicamente, não pode sofrer uma síndrome menstrual não pode beneficiar-se do dispositivo” — uma frase que evidencia a tensão entre linguagem administrativa, identidades de gênero e a necessidade de verificação.
Como analista de relações internacionais e estratégia, observo neste episódio um movimento decisivo no tabuleiro institucional: a tentativa de redesenhar fronteiras invisíveis da proteção social choca-se com a fragilidade dos alicerces administrativos. Sistemas de confiança funcionam quando o custo do abuso é superior ao benefício do oportunismo; quando essa equação se inverte, é necessário recalibrar regras e salvaguardas, sem trair os princípios de inclusão.
As possíveis soluções técnicas vão de um modelo híbrido — licença acompanhada de atestado médico simplificado em casos de suspeita de uso indevido — a mecanismos verificadores que preservem anonimato e dignidade. O desafio é político e logístico: manter a proteção a quem verdadeiramente sofre, sem abrir brechas para exploração que acabem por corroer o próprio sistema. É um problema de arquitetura institucional que exige decisões ponderadas, medidas de controle e clareza sem conceder retrocessos aos direitos já conquistados.
No tabuleiro da governação universitária, Limoges deu um lance que expõe uma tectônica de poder entre inclusão, ciência médica e administração pública. O próximo movimento poderá definir se o projeto evolui para um modelo de proteção resiliente ou se retrocede sob o peso dos ataques e desconfianças.






















