Por Marco Severini — Em um episódio que rearranja as linhas do tabuleiro da memória coletiva, a justiça francesa indiciou Jacques Leveugle, nascido em 1946 em Annecy, acusado de crimes sexuais contra 89 menores e de dois homicídios por asfixia cometidos em décadas distintas. O caso, exposto em conferência do Ministério Público de Grenoble pelo procurador Etienne Manteaux, revela uma série de delitos que se estende entre 1967 e 2022, praticados em múltiplos pontos do mapa mundial.
O volume probatório inclui uma pen drive que continha um documento que o próprio acusado teria elaborado — um inventário em “15 tomos” que, segundo as autoridades, lista as vítimas. Com essa peça, o panorama passado pelo réu, um ex‑professor sem antecedentes judiciais anteriores, ganhou contornos de sistematicidade: uma trajetória que o levou pela França, Alemanha, Suíça, Portugal, Marrocos, Níger, Argélia, Filipinas, Índia, Colômbia e Nova Caledônia.
As vítimas têm idade estimada entre 13 e 17 anos na época dos abusos, que teriam sido facilitados pelo papel do acusado como apoio escolar e docente nessas localidades. Segundo o procurador, Leveugle se apresentava como um homem culto e carismático, exercendo uma “sedução intelectual” que pavimentava o caminho para as agressões. Em depoimento, o indiciado justificou seu comportamento alegando uma autopercepção mítica, comparando‑se a um “grego antigo” voltado à formação de jovens efebos — uma autoimagem cuja arquitetura moral colide frontalmente com a realidade dos fatos.
Além das acusações de abuso, o réu reconheceu, segundo os investigadores, ter asfixiado sua mãe terminalmente doente com um travesseiro no início dos anos 1970 e, usando a mesma técnica, sua tia com 92 anos nos anos 1990. Esses dois homicídios correm em inquérito separado do processo sobre os abusos a menores. Leveugle declarou considerar ambos os atos “legítimos”, afirmando que reclamaria tratamento semelhante se viesse a enfrentar uma situação de fim de vida — uma admissão que amplia a gravidade moral e penal do caso.
Desde 2022, cerca de 150 testemunhas já foram ouvidas no inquérito que se desdobra. O Ministério Público exorta outras vítimas a se apresentarem com urgência: há o risco de prescrição para delitos anteriores a 1993, e o procurador advertiu que será necessário concluir o dossiê até 2026 se se pretende obter condenações em prazos razoáveis. “O tempo aperta”, declarou Manteaux, ressaltando a idade do réu e a natureza temporal das regras processuais.
O caso veio à luz quando um sobrinho encontrou a pen drive e a entregou à polícia de Vizille (Isère) em 2022. Para o comandante da seção de investigações de Grenoble, Serge Procédès, trata‑se de um “caso escolar de serialidade” criminal — uma definição que descreve não só a extensão, mas também a regularidade e o método do suposto predador.
Colocar em perspectiva este processo exige calma e rigor: trata‑se de um reposicionamento dos alicerces da responsabilidade coletiva, um redesenho discreto nas fronteiras da confiança pública. A solicitação das autoridades é clara — vítimas ou testemunhas que reconheçam episódios compatíveis devem contactar o inquérito antes que o relógio processe parte do passado para fora do alcance da lei.
Leveugle encontra‑se em detenção provisória desde fevereiro de 2024. As investigações prosseguem, e o gabinete do procurador mantém aberta a convocação para que outras vozes se apresentem e completem o mapa das vítimas, essencial para que a tessitura da ação penal não fique incompleta.





















