Por Marco Severini — Desde a base submarina de Île-Longue, em um pronunciamento de tom estratégico e longo alcance, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou um plano sem precedentes para ampliar o número de testadas nucleares sob comando de Paris e permitir o seu emprego operacional, de forma temporária, em solo de Estados aliados. A iniciativa foi justificada como um reforço da dissuasão nuclear europeia numa era marcada por deslocamentos tectônicos de poder.
Em linha com uma visão de autonomia estratégica continental — a saber, que independência não se confunde com isolamento — Macron descreveu um programa que classificou de “dissuasão nuclear avançada”. O presidente falou por cerca de 50 minutos, tendo ao fundo um dos quatro sibilantes submarinos franceses capazes de lançar mísseis balísticos intercontinentais. Na sua narrativa, a crescente volatilidade do tabuleiro geopolítico exige movimentos consequentes para fortalecer os alicerces da segurança comum europeia.
Segundo Paris, oito países europeus aceitaram integrar-se ao novo arranjo: Alemanha, Polônia, Suécia e Reino Unido — além de Holanda, Bélgica, Grécia e Dinamarca. França e Alemanha anunciaram, em comunicado conjunto, a criação de um “grupo diretivo nuclear” cuja função será coordenar procedimentos e exercícios. Segundo o comunicado, esse mecanismo visa aumentar, não substituir, a dissuasão nuclear da OTAN.
O plano prevê que forças aéreas estratégicas francesas possam ser temporariamente baseadas em territórios aliados, com o objetivo declarado de “complicar os cálculos dos adversários”. Macron acrescentou que há possibilidade de integração das forças convencionais aliadas nas operações relacionadas à sua force de frappe, reiterando que decisões sobre emprego permanecerão sob soberania de Paris. Operações conjuntas específicas com a Alemanha foram anunciadas como imediatas.
Do lado dos aliados, o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, saudou a iniciativa em rede social, afirmando que “nos armamos com amigos para que adversários nunca ousem nos atacar”. A mensagem revela a percepção — partilhada em várias capitais — de que a tectônica de poder no continente requer uma arquitetura de defesa mais densa e menos dependente de guarda-costas externos.
Dados públicos colocam a França como detentora do quarto maior arsenal nuclear mundial, com cerca de 290 testadas. Macron foi cuidadoso ao afirmar que Paris manterá soberania sobre o uso da sua capacidade nuclear; entretanto, não divulgou números precisos sobre o aumento previsto no arsenal.
No campo doméstico, a iniciativa provocou críticas imediatas do principal partido da oposição, o Rassemblement National. Marine Le Pen e Jordan Bardella afirmaram, em nota conjunta, que a nova concepção equivale a dispersar os recursos nucleares franceses pelo continente, o que, segundo o Rassemblement, poderia reduzir a efetividade e a soberania da capacidade francesa nas vésperas de uma campanha eleitoral crucial.
Do ponto de vista de estratégia internacional, estamos diante de um movimento que redesenha linhas de dependência e projeção: não se trata apenas de contagem de ogivas, mas de reposicionamento político-militar sobre o tabuleiro europeu. Paris aposta em uma combinação de mobilidade estratégica e alianças operacionais para elevar o custo do ataque a aliados e a si própria. A arquitetura proposta preserva a autoridade de Paris sobre a force de frappe, ao mesmo tempo em que exporta, de maneira controlada, a capacidade de intimidação nuclear como instrumento coletivo de estabilidade.
Essa iniciativa, se materializada, exigirá ajustes diplomáticos precisos — do direito de trânsito aéreo às regras de engajamento — e poderá reconfigurar, discretamente, zonas de influência e responsabilidade dentro da OTAN e além. Em termos de Realpolitik, é um lance audacioso: um movimento de torre em diagonal sobre um tabuleiro onde as peças ainda procuram posições definitivas.






















