Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma abrupta, os alicerces da diplomacia regional, a administração de Donald Trump anunciou ter ordenado uma operação visando à captura de Nicolás Maduro, acusado por Washington de envolvimento com narcotraficantes. O episódio marca, segundo o presidente norte-americano, o encerramento da era Maduro e abre uma nova fase no tabuleiro político venezuelano.
No discurso na residência de Mar-a-Lago, Trump afirmou que os Estados Unidos conduzirão o país até uma transição segura, ressaltando que não desejam permanecer indefinidamente, nem permitir que outro ator substitua Washington e gere a repetição de anos de instabilidade. A declaração, carregada de autoridade executiva, deixou claro que, na prática, todas as decisões estratégicas estão temporariamente nas mãos de Washington.
O presidente citou, ainda, nomes que comporiam a estrutura de comando para esse período: o secretário à Defesa (nome citado como Pete Hegseth), o secretário de Estado (Marco Rubio) e o general Dan Caine. Trump referiu-se a um “grupo” de colaboração, sem especificar formalmente sua composição, mas adiantou que já estão sendo designadas pessoas para funções de transição.
Segundo a Constituição venezuelana, no vácuo do presidente, os poderes deveriam passar à vice-presidente executiva — no caso, Delcy Rodríguez — e eleições gerais deveriam ocorrer em até 30 dias, conforme o artigo 233. Contudo, a realidade no terreno mostra um cenário distinto: com o controle total proposto por Washington e a hipótese de envio de tropas mencionada pelo próprio Trump, as alternativas constitucionais ficam condicionadas ao alinhamento de Rodríguez às diretrizes norte-americanas.
De seu lado, Delcy Rodríguez reafirmou, em pronunciamento na TV estatal, a linha de defesa de Maduro: exigiu a imediata libertação do presidente e de sua esposa, Cilia Flores, e reiterou que Maduro é “o único presidente do Venezuela”, declarando-se pronta a defender o país e suas riquezas naturais. Todavia, nos jogos de bastidores, a retórica pública pode conviver com negociações discretas — ou com a sua exclusão total — dependendo dos objetivos de Washington.
O papel da oposição também está em mutação. María Corina Machado, figura conhecida e celebrada em círculos internacionais, foi explicitamente descartada por Trump, que avaliou que ela “não goza de respeito suficiente no país” para liderar um processo de conciliação. Era previsível que a oposição, que qualificou Maduro como ilegítimo e contestou as últimas eleições, buscasse capitalizar a nova janela de oportunidade; entretanto, sua margem de manobra será fortemente condicionada pela influência externa.
Três cenários possíveis
Analiso abaixo os três vetores mais plausíveis — movimentos estratégicos no grande tabuleiro, cada qual com riscos e recompensas distintos:
- Transição tutelada com figura nacional alinhada: Washington poderia optar por manter uma fachada constitucional, empurrando Delcy Rodríguez para uma transição formal, condicionada a um acordo que assegure a saída de figuras-chave do regime e a convocação de eleições organizadas sob supervisão internacional. Esse caminho preserva uma aparência de legalidade e reduz resistências diretas, mas exige que Rodríguez aceite termos que comprometam o atual núcleo do poder.
- Administração provisória sob tutela direta dos EUA: No movimento mais intervencionista, os Estados Unidos instalariam um conselho de transição com participação direta de oficiais e diplomatas citados por Trump, e com possível presença militar de sustentação. Esse cenário resolve rapidamente o vácuo de poder, mas acarreta alto custo geopolítico, risco de insurgência e condenação internacional, redesenhando fronteiras de influência na região.
- Prolongamento do conflito interno e impasse político: Se nem o aparato chavista ceder, nem a oposição encontrar interlocutores aceitos por Washington, o país pode deslizar para um ciclo prolongado de instabilidade: protestos, violência e fragmentação institucional. Nessa opção, múltiplos atores locais e extracontinentais disputariam espaços de poder, tornando a transição lenta e custosa.
Cada cenário implica um diferente mapa de equilíbrio: do tabuleiro estável, mas tutelado, ao teatro de sombras onde atores não estatais ganham protagonismo. A escolha de Washington — se privilegiará a aparência jurídica, o controle direto ou aceitará um processo incerto — definirá o novo eixo de influência na região.
Como diplomata da informação, destaco que a peça constitucional (artigo 233) permanece um referencial técnico, mas a tectônica de poder real é decidida nos gabinetes e nas coordenações militares. A oposição terá de negociar não apenas com o governo venezuelano, mas sobretudo com a potência que agora detém a iniciativa estratégica.































