Por Marco Severini — Em uma iniciativa que traduz o entrelaçamento entre futebol e responsabilidade moral, cerca de vinte figuras ligadas ao esporte assinaram uma carta aberta dirigida ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, pedindo que a entidade internacional condene publicamente a repressão em curso promovida pelas autoridades de Teerã. O documento, cuja divulgação foi relatada pelo Guardian, foi também enviado aos presidentes das mais de 200 federações filiadas à FIFA.
Os signatários descrevem um “movimento nacional, popular e cívico” que foi sufocado por uma política de repressão sistemática, com mortes em massa e ações que caracterizam, segundo a carta, exemplos claros de crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Entre as vítimas citadas, há um número significativo de integrantes da comunidade do futebol iraniano, incluindo o ex-jogador Ali Karimi — um dos nomes que emprestaram voz ao apelo — e outros atletas e profissionais do esporte identificados nominalmente no texto.
São mencionados, entre outros, o ex-jogador Mojtaba Tarshiz, que deixou dois filhos pequenos; a assistente de arbitragem feminina Saba Rashtian; o treinador de categorias de base Mehdi Lavasani; os jogadores Amirhossein Mohammadzadeh e Ribin Moradi; além do goleiro da seleção de beach soccer, Mohammad Hajipour. A carta solicita que a FIFA e as federações nacionais não limitem-se a palavras, mas utilizem todos os mecanismos legais e disciplinares à disposição para proteger as figuras do futebol iraniano.
O pedido é preciso: condenar publicamente as ações de Teerã, exigir o imediato fim das detenções e execuções arbitrárias e reafirmar que a protesto pacífico e a expressão de opiniões pessoais são direitos humanos fundamentais. “O silêncio diante desses crimes equivale a abandonar os princípios que o futebol mundial afirma defender”, afirma o trecho final da carta.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um movimento que tenta mover uma peça simbólica no grande tabuleiro internacional: o futebol, por sua ubiquidade social, funciona como alavanca de visibilidade sobre violências que, de outra forma, poderiam permanecer sob a sombra. A iniciativa dos ex-nacionais é um apelo para que a arquitetura normativa do esporte — códigos disciplinares, sanções e plataformas de denúncia — seja mobilizada diante de violações dos direitos humanos.
É também um convite à reflexão sobre os alicerces frágeis da diplomacia esportiva: quando a legitimidade de uma autoridade global é posta à prova, as decisões tomada pela FIFA não são apenas administrativas, mas movimentos estratégicos que redesenham fronteiras invisíveis de influência e responsabilidade. Proteger atletas é, neste contexto, proteger o espaço público onde se articulam vozes dissidentes e demandas por justiça.
Resta saber se o apelo logrará traduzir-se em medidas concretas por parte da FIFA e das federações — um teste de coerência entre retórica e ação, com implicações diretas na tectônica do poder global e na defesa universal dos direitos humanos.






















