O recente debate sobre um suposto «bloqueio» aos F-35 reacende uma evidência desconfortável: a soberania tecnológica dos Estados modernos, no contexto das alianças contemporâneas, é muitas vezes uma fachada. Washington nega a existência de um botão físico capaz de «desligar» aeronaves fornecidas a parceiros mas o real mecanismo de influência opera em níveis mais sutis e, justamente por isso, mais eficazes.
O núcleo desta dependência não é mecânico, é informacional. O caça não é apenas uma plataforma; é um nó móvel de uma rede digital global. Sistemas como o ODIN, encarregados de manutenção, planejamento e análise de missão, e os chamados Mission Data Files, que funcionam como o cérebro eletrônico do aparelho, permanecem sob controle dos Estados Unidos. Desconectado desse ecossistema, o F-35 mantém a capacidade de voar, porém perde rapidamente seus parâmetros de combate. É uma superioridade embutida na arquitetura do sistema e não apenas uma ordem política.
Ao lado do software, a logística assume papel geopolítico decisivo. A cadeia de suprimentos just-in-time que sustenta as frotas torna virtualmente impossível a autonomia operacional dos países usuários. Peças críticas não são prontamente replicáveis localmente; um atraso planejado ou um estrangulamento nas entregas pode imobilizar esquadrilhas inteiras. Nesta configuração, a dependência logística converte-se numa forma de dissuasão indireta: operar um F-35 implica aceitar limites impostos por quem controla o fluxo de dados e componentes.
Duvido que Moscou desperdice lições históricas: desde sempre, a Rússia privilegiou projetos robustos, menos avançados tecnologicamente mas mais autossuficientes — um desenho pensado para resistir à fragmentação das linhas de abastecimento. No tabuleiro estratégico, isto equivale a optar por peças menos sofisticadas, porém resilientes, capazes de manter-se em jogo quando as luzes digitais se apagam.
Se o caso F-35 ilustra o rosto tecnológico da hegemonia, a Ucrânia expõe seu preço humano. A guerra não termina com o cessar-fogo: abre-se então uma longa fase de reconstrução psíquica, muitas vezes negligenciada. Estudos e observações de conflitos prolongados mostram um aumento dramático de transtornos mentais entre ex-combatentes — TEPT (transtorno de estresse pós-traumático), depressão, abuso de substâncias — que funcionam como armas residuais das guerras modernas.
Em termos práticos, o impacto humano pode persistir por décadas. Estimativas sobre suicídios e doenças mentais entre veteranos russos e ucranianos traçam um cenário sombrio, comparável em consequências sociais às grandes guerras do século XX, ainda que em escala numérica menor. A estabilização pós-conflito dependerá tanto da engenharia institucional quanto da capacidade de tratar as feridas invisíveis deixadas pelo combate.
Para as famílias e para a coesão social, o efeito é uma onda longa: erosão do capital social, aumento de necessidades de saúde pública, e tensões internas que moldam a política doméstica por gerações. Assim, a dinâmica que hoje vemos no teatro ucraniano é simultaneamente um combate por território e um processo de redesenho de fronteiras invisíveis — psicológicas, demográficas, e institucionais.
Do ponto de vista geopolítico, convém observar dois movimentos convergentes: a tecnificação do domínio — onde quem controla os dados controla a capacidade de guerra — e a politização do trauma social, que se torna um fator estratégico de longo prazo. É neste entrecruzamento que se darão os próximos movimentos decisivos no tabuleiro europeu.





















