Marco Severini | 15 de janeiro de 2026
Em um movimento que altera o equilíbrio nas rotas migratórias globais, os Estados Unidos anunciaram a suspensão “indefinida” do processamento de vistos permanentes para cidadãos de 75 países a partir de 21 de janeiro de 2026. A medida incide sobre categorias de imigração vinculadas ao assentamento permanente — entre elas vistos de trabalho e de reunião familiar — e não atinge vistos não imigrantes, como os turísticos ou de estudante.
Na lista figuram Estados de diversa escala geopolítica e económica, incluindo Rússia, Irã, Egito e Moldávia, além de múltiplas nações da América Latina e da África. Segundo o Departamento de Estado, o objetivo declarado é reforçar a aplicação da cláusula do “public charge“, norma que permite negar vistos a candidatos que, em avaliação governamental, possam tornar-se um ônus para o sistema de assistência social norte-americano.
Tommy Pigott, porta-voz do Departamento, afirmou que a pausa permanecerá enquanto as rotinas de avaliação são revistas para prevenir a entrada de indivíduos considerados em risco de dependência de serviços públicos. Em linguagem administrativa, trata-se de um reajuste processual; em termos estratégicos, é um movimento de grande alcance que redesenha — ainda que de maneira invisível — linhas de influência e circulação humana.
Críticos denunciam que a lista penaliza desproporcionalmente países em desenvolvimento ou regiões afetadas por instabilidade, atingindo famílias, trabalhadores qualificados e cadeias econômicas transnacionais. Observadores de política externa recordam que a decisão se insere num quadro mais amplo: nos últimos meses, a administração Trump ampliou restrições de entrada (incluindo novas limitações contra territórios como Palestina e Síria) e intensificou exigências sobre verificações de atividade em redes sociais para viajantes sob o programa ESTA.
Além disso, documentos públicos e rascunhos recentes sugerem a avaliação de critérios médicos e psicológicos — desde condições de saúde crônicas até transtornos mentais — no cálculo do “ônus público“. Especialistas em direitos humanos e organizações não governamentais qualificam as medidas como politicamente dirigidas e potencialmente discriminatórias, avisando para o impacto humanitário e económico de longo prazo.
Como analista de geopolítica, enxergo esta iniciativa como uma jogada de alto risco no tabuleiro de xadrez internacional: visa domesticar fluxos migratórios e preservar recursos internos, mas pode fragilizar alianças regionais, reduzir a atração de mão de obra qualificada e provocar repercussões econômicas em economias que dependem de remessas e mobilidade laboral. O impacto real dependerá da extensão da lista, da duração da suspensão e das medidas complementares — elementos que compõem os alicerces frágeis da diplomacia migratória contemporânea.
Em resumo, a suspensão do processamento de vistos de imigrante para 75 países é uma peça estratégica que reflete a tectônica de poder vigente em Washington: segurança nacional, pressão doméstica e considerações eleitorais convergem para redesenhar, com cautela e contundência, as fronteiras administrativas da migração.





















