Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, em alto nível, o tabuleiro da diplomacia climática global, os Estados Unidos anunciaram a retirada de 66 organismos internacionais, entre os quais se destacam a **Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC)** e o **Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC)**. A decisão foi formalizada por meio de um memorando presidencial que instrui agências federais a iniciar os procedimentos para suspender a participação e o financiamento americano.
Trata-se de um golpe significativo ao **multilateralismo** pós-1945: uma estratégia de gestão coletiva de desafios transnacionais agora confronta um redirecionamento explícito da política externa americana para prioridades internas e reavaliação de alianças institucionais. No âmbito listado pelo governo, há 35 organizações fora do sistema ONU e 31 vinculadas diretamente ao organismo internacional — com uma concentração notável em órgãos de **clima**, **ciência**, **ambiente** e governança global.
Entre os nomes mais sensíveis para a arquitetura climática figuram a **UNFCCC** — o tratado de 1992 que constitui a base jurídica dos Acordos de Paris — e o **IPCC**, o painel científico reconhecido mundialmente por avaliar as evidências sobre aquecimento global. A retirada engloba também agências como a Agência Internacional para Energias Renováveis (**IRENA**) e a **International Solar Alliance**, ferindo a coesão de iniciativas técnicas e financeiras voltadas à transição energética.
O secretário de Estado, identificado no comunicado como **Marco Rubio**, justificou a decisão afirmando a necessidade de revisar a arquitetura multilateral, que, segundo ele, se transformou de um conjunto pragmático de organismos em uma vasta engrenagem dominada por uma ideologia progressista distante dos interesses nacionais. Essa formulação traduz uma lógica de realinhamento: reduzir compromissos externos percebidos como onerosos ou politicamente desconsonantes com a agenda doméstica.
O impacto, contudo, ultrapassa o setor ambiental. A lista inclui também organismos dedicados a **direitos humanos**, **igualdade de gênero** e promoção democrática — como a **UN Women**, o Fundo da ONU para a Democracia e estruturas voltadas ao peacebuilding. Há ainda um desengajamento de iniciativas ligadas ao desenvolvimento, ao comércio internacional e à gestão de migrações.
A reação internacional foi imediata e dura. A União Europeia qualificou a decisão como “deplorevole e infelice”, sublinhando que a saída de quem é a maior economia mundial e o segundo maior emissor de gases representa um retrocesso para a ação climática coletiva. Em termos de estratégia geopolítica, a medida cria um vácuo de influência técnica e financeira que não permanecerá desocupado: atores estatais e não estatais — com agendas e capacidades diversas — disputarão essa margem de manobra.
Do ponto de vista analítico, o movimento americano pode ser interpretado como um movimento decisivo no tabuleiro da Realpolitik: um reposicionamento que privilegia soberania percebida sobre ganhos cooperativos. Mas tal escolha implica riscos. A retirada da **UNFCCC** e do **IPCC** fragiliza os alicerces da resposta coletiva ao clima, reduz a capacidade de acesso às redes científicas e financeiras globais e mina a credibilidade americana como parceiro de longo prazo em questões transfronteiriças.
Em termos práticos, governos nacionais, empresas e redes científicas enfrentarão maior incerteza sobre normativas, padrões e mecanismos de financiamento. O redesenho de fronteiras invisíveis da governança climática pode acelerar processos de regionalização ou a emergência de blocos alternativos de cooperação, com implicações duradouras sobre cadeias de energia, investimentos e segurança ambiental.
Em suma, a medida representa, mais do que um ajuste institucional, uma tectônica de poder: desloca influências, compromissos e responsabilidades. Resta observar como aliados e adversários reagirão — se buscarão preencher o vazio com iniciativas técnicas e financeiras próprias ou se a decisão provocará um novo equilíbrio, menos cooperativo e mais competitivo.































