Por Marco Severini — Espresso Italia
Fontes citadas pela AFP indicam que os Estados Unidos devem completar a retirada dos EUA da Síria dentro de um mês, um movimento que já começou com a saída de tropas de uma base relevante no nordeste do país. O embaralhar das posições no terreno — com colunas de caminhões, blindados e estruturas sendo deslocadas — desenha um novo mapa de influência na região.
O recuo americano ocorre num momento em que o governo central sírio estendeu seu controle sobre o nordeste, área anteriormente administrada pelas forças curdas aliadas aos EUA, e declarou formalmente sua adesão à coalizão contra o ISIS. Paralelamente, a agência estatal síria SANA reportou que quatro integrantes das forças de segurança foram mortos em um ataque atribuído ao ISIS na cidade de Raqqa — local simbólico, anteriormente epicentro do autoproclamado califado.
Nas últimas duas semanas, Washington já retirou presença militar de duas posições estratégicas: al-Tanf, no sudeste, e Shadadi, no nordeste. Um representante do governo sírio afirmou que “dentro de um mês estarão fora da Síria e não haverá mais presença militar nas bases”; uma fonte curda confirmou o cronograma à AFP. Todos os interlocutores falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a conceder declarações oficiais.
As imagens de uma equipe da AFP mostram um comboio de dezenas de caminhões transportando veículos blindados e estruturas pré-fabricadas ao longo da estrada que liga a base de Qasrak, na província de Hasakeh, à fronteira com o Iraque. Esse movimento logístico evidencia que a retirada é coordenada e que busca evitar um vácuo abrupto, ao mesmo tempo que redesenha linhas de controle entre Damasco, atores locais curdos e potências externas.
Embora o ISIS tenha sido derrotado territorialmente em 2019 com as forças curdas em linha de frente, o grupo mantém células adormecidas. No último sábado, o grupo jihadista convocou seus militantes a combater as autoridades sírias, reafirmando o risco de retorno por meio de ataques assimétricos. SANA citou uma fonte de segurança afirmando que “quatro membros das forças de segurança interna” foram mortos num ataque contra um posto de bloqueio, e que um agressor foi abatido, segundo o Ministério do Interior sírio.
Análise estratégica
Do ponto de vista de tectônica de poder, trata-se de um movimento com múltiplas camadas. A saída americana reduz a projeção direta de Washington no tabuleiro sírio, enquanto reforça os alicerces da diplomacia entre Damasco e atores locais — em particular as lideranças curdas, que no último mês demonstraram disposição de integrar instituições com Damasco. Em termos de equilíbrio, o espaço político e militar fica mais permeável à influência de aliados do regime, notadamente Rússia e Irã, que já atuam como arquitetos do redesenho regional.
Militarmente, a retirada evita confrontos diretos entre forças convencionais estrangeiras, mas pode abrir brechas para ataques de células do ISIS e para manobras de potências regionais. A ligação por estrada entre Qasrak e a fronteira iraquiana ressalta também a importância das rotas logísticas transfronteiriças — um elemento chave na cartografia das próximas disputas.
Em suma, a previsão de saída completa em um mês é um “movimento decisivo no tabuleiro” que altera não apenas posições militares, mas também os termos de negociação política entre Damasco, as forças curdas e atores externos. A estabilidade resultante dependerá da capacidade das instituições locais e da comunidade internacional de preencher, com coordenação, os vazios de segurança antes que a insurgência (ou rivalidades regionais) os explorem.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.






















