Por Marco Severini — Em uma ação que redesenha, de forma abrupta, a geografia da influência hemisférica, os Estados Unidos executaram um raid de grande escala no Venezuela nas primeiras horas do sábado, abrindo um capítulo de alta tensão nas relações entre Washington e Caracas.
Segundo mensagens oficiais e postagens nas redes socais, a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, anunciou que Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e removidos do país. Bondi declarou que ambos serão “incriminados e processados no Southern District de New York” por crimes que incluem a acusação de narcoterrorismo. Afirmou ainda acusações específicas contra o casal: conspiração para cometer narco-terrorismo, importação de cocaína, posse de metralhadoras e de artefatos destrutivos, e conspiração para usá-los contra os Estados Unidos.
O presidente Donald Trump reivindicou a operação como bem-sucedida e confirmou a captura e a expulsão de Maduro e de sua esposa “fora do país”, indicando coordenação com as forças policiais americanas. Relatos descrevem explosões, voos a baixa altitude e ataques a pontos estratégicos em Caracas, incluindo relatos — não totalmente verificados de forma independente — de ações sobre o aeroporto de Higuerote e a base militar de Fort Tiuna.
Do ponto de vista das narrativas diplomáticas, a declaração de Bondi foi ríspida e sem ambiguidades: “Eles enfrentarão em breve a plena força da justiça americana, em solo americano, nos tribunais americanos”. A procuradora agradeceu a Casa Branca pelo que descreveu como uma decisão política necessária para responsabilizar os supostos envolvidos em redes transnacionais de narcotráfico.
No tabuleiro regional, a manobra gerou reações imediatas. O presidente colombiano Gustavo Petro afirmou que Caracas estaria sob ataque e denunciou bombardeios com mísseis; por sua vez, vozes internas apontam para cenários de transição política que vão desde um governo interino ligado à vice-presidente Delcy Rodríguez até uma possível ascensão eleitoral ou política de figuras de oposição como María Corina Machado. Observadores levantam, com prudência, a hipótese de que a saída de Maduro tenha sido objeto de negociações nos bastidores — um movimento mais coordenado do que um simples ataque unilateral.
Como analista e diplomata da informação, encaro este movimento como um lance com consequências tectônicas no tabuleiro sul-americano. A remoção física de um chefe de Estado em exercício — se confirmada em todos os seus pormenores jurídicos e operacionais — altera alicerces frágeis da diplomacia regional e implica um redesenho de fronteiras políticas invisíveis: alianças, cadeias de abastecimento do narcotráfico, vetos multilaterais e espaços de soberania serão testados nas próximas semanas.
Do ponto de vista jurídico, a opção por processar em um distrito federal norte-americano torna o caso um exemplo claro da extraterritorialidade penal que os Estados Unidos historicamente praticam quando consideram ameaçados seus interesses de segurança nacional e a proteção de seus cidadãos. Do ponto de vista estratégico, resta saber como Estados vizinhos, blocos regionais e atores extrarregionais reagirão a um movimento que pode ser lido tanto como ação de justiça quanto como intervenção política.
Seguiremos acompanhando com atenção as repercussões diplomáticas e militares desse episódio, que tem potencial para reconfigurar alianças e provocar uma nova etapa de instabilidade na região. Movimentos decisivos no tabuleiro agora precisarão ser acompanhados por negociações discretas e canais de contato que evitem uma escalada descontrolada.































