Por Marco Severini — A movimentação militar norte‑americana no tabuleiro do Oriente Médio sugere um momento de escalada: sinais convergentes indicam que a janela para um possível ataque dos EUA contra o Irã estaria se abrindo na próxima semana. Em termos estratégicos, trata‑se de um movimento de peças que redesenha, ainda que temporariamente, a tectônica de poder regional.
Fontes de inteligência e relatos diplomáticos apontam para o deslocamento de ativos significativos rumo à região: caças, aviões‑tanque, aeronaves de reconhecimento e meios de apoio logístico, muitos provenientes de bases europeias. Ao mesmo tempo, uma unidade naval de grande porte — a porta‑aviões USS Abraham Lincoln — tem previsão de chegar às águas do Oriente Médio por volta de quinta‑feira, 22 de janeiro. Esse conjunto de deslocamentos configura uma capacidade aérea e naval apta a executar uma operação de precisão contra alvos iranianos.
No entanto, apesar da prontidão operacional, a ordem final para um golpe não teria sido emitida — e há razões estratégicas e diplomáticas claras para esse adiamento. Em primeiro lugar, países do Golfo teriam exercido pressões consideráveis sobre Washington para evitar que a região seja arrastada a um conflito aberto, com potencial de ruptura das rotas energéticas e de agravamento do já frágil equilíbrio.
Em segundo lugar, o premiê israelense Benjamin Netanyahu manifestou temores de que Israel não esteja totalmente preparado para enfrentar retaliações iranianas em larga escala caso um ataque ocorra. Em uma partida de xadrez estratégico, Tel Aviv prefere consolidar defesas e coordenar medidas de contingência antes de permitir um movimento unilateral que possa expor todo um flanco.
Outro fator determinante é a condição interna do regime dos aiatolás. A administração de Ali Khamenei enfrenta protestos internos, e permanece incerta a reação do aparelho estatal a um ataque externo — se isso o desestabilizaria ainda mais ou, contrariamente, fortaleceria coesão nacional em torno do líder. Washington avalia que o impacto político interno no Irã é uma variável que pode alterar significativamente o resultado estratégico.
Em paralelo às movimentações militares, há uma guerra de versões e narrativas: Teerã acusa a CIA e o Mossad de financiar manifestantes com o objetivo de provocar violência e dividir o país, enquanto os Estados Unidos defendem a possibilidade de intervenção para deter o que classificam como massacres e violações de direitos.
Relatos específicos circulam sobre planos de ataque a infraestruturas nucleares, inclusive a instalação subterrânea de Fordow, um alvo de alto valor estratégico. Um ataque a instalações nucleares é, por natureza, uma jogada de risco extremo — capaz de provocar respostas assimétricas e ampliar a guerra por procuração na região.
Para além do imediato, o que está em jogo é o alicerce das relações de poder no Grande Oriente Médio: um confronto direto entre EUA e Irã redesenharia linhas de influência, arriscando ampliar frentes de tensão que vão da Península Arábica ao Levante. A diplomacia trabalha, por ora, para atrasar o movimento decisivo no tabuleiro, repetindo a lógica clássica de ganhar tempo para consolidar alianças, avaliar reação adversária e mitigar custos colaterais.
Como analista, vejo duas lições estratégicas imediatas: primeiro, a centralidade da coordenação entre aliados na pós‑guerra potencial — sem ela, um ataque poderia transformar sucessos táticos em falhas estratégicas; segundo, a imprevisibilidade do fator interno iraniano, que pode tanto desgastar o regime quanto provocar uma resposta de caráter nacionalista e vingativo, complicando todos os cenários.
A próxima semana será, portanto, decisiva. Não apenas pela movimentação física de navios e aviões, mas porque cada gesto diplomático e cada declaração pública atuam como peças de um jogo onde um erro de cálculo pode transformar um movimento limitado em amplo conflito.






















