Por Marco Severini
Em um movimento que redesenha linhas de influência no tabuleiro geopolítico, os Estados Unidos anunciaram um novo pacote de sanções dirigidas a Teerã, com especial foco em atores envolvidos nas exportações de petróleo iraniano. A medida, comunicada poucas horas após a conclusão de rodadas indiretas de negociações em Omã, mira 14 navios petroleiros e dezenas de entidades conectadas ao comércio do “ouro negro” persa.
Os ciclos de conversação — um pela manhã e outro no início da tarde — não produziram um acordo substancial. Segundo declarações oficiais iranianas, as discussões concentraram-se exclusivamente no tema do enriquecimento do urânio. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, reiterou que Teerã recusou qualquer suspensão ou transferência para o exterior do seu programa nuclear, condição que, na visão iraniana, não pode ser imposta como pré-requisito sem o fim de ameaças e pressões.
Em resposta à manutenção dessa posição, a administração norte-americana elevou a pressão econômica. O pacote punitivo atinge não apenas empresas iranianas, mas também intermediários e embarcações que, segundo Washington, facilitam as exportações de hidrocarbonetos do Irã. A mensagem política é clara: os Estados Unidos persistem na estratégia de “máxima pressão” para asfixiar financeiramente o regime de Teerã, num momento em que o país já enfrenta uma conjuntura interna complexa, marcada por protestos sociais e acusações de interferência externa.
Teerã, por sua vez, denuncia intromissões de serviços de inteligência estrangeiros, citando alegações contra agências como a CIA e o Mossad, acusadas de fomentar dissenso interno com o objetivo de pressionar por mudança de regime. Trata-se de uma narrativa que compõe o pano de fundo das tensões contemporâneas: enquanto uma diplomacia cautelosa tenta manter canais de diálogo abertos, a retórica e as ações coercitivas corroem os alicerces de confiança necessários para qualquer avanço.
O fracasso das conversas em Omã ilustra a fragilidade do processo negocial. Araghchi destacou que o “prerequisito para qualquer diálogo” é a abstenção de ameaças e pressões — uma formulação que resume a desconfiança mútua. No terreno, observa-se uma crescente militarização: os Estados Unidos reforçaram sua presença naval no Mar Arábico, e o Irã respondeu com advertências que elevam o risco de incidentes marítimos e logísticos.
Este episódio deve ser lido como um movimento coordenado dentro de uma tectônica de poder regional e global. A intenção americana de cortar fontes de receita petrolífera ao Irã é, em essência, uma jogada estratégica para reduzir a capacidade de projeção iraniana sem recorrer, ao menos por ora, a uma escalada militar direta. Mas, como em um jogo avançado de xadrez, cada peça removida do tabuleiro financeiro pode forçar respostas assimétricas e imprevisíveis do adversário.
Do ponto de vista diplomático, as próximas semanas serão decisivas: a continuidade das negociações depende tanto de concessões técnicas sobre o programa nuclear quanto de um recuo — real ou simbólico — do uso coerção econômica como pré-condição. A alternância entre diálogo e sanções mantém a região em tensão, testando os limites dos canais de mediação e sublinhando que os alicerces da paz permanecem frágilmente assentados.






















