Por Marco Severini — A recente reorientação da representação alimentar nos Estados Unidos, com a pirâmide invertida promovendo carne vermelha e laticínios no topo, abriu um novo espaço simbólico para a reconquista do leite integral. A administração Trump sancionou o Whole Milk for Healthy Kids Act, que restabelece a presença do leite integral nas escolas, e a Casa Branca divulgou a campanha “Make Whole Milk Great Again” nas redes sociais.
Imagens e postagens de caráter celebratório — entre elas um vídeo viral associado ao secretário de Saúde Robert Kennedy Jr. — ajudaram a transformar o leite integral em um argumento cultural e político. Em paralelo, segundo relatos vindos dos Estados Unidos, ressurgiu um movimento mais radical: os defensores do leite cru, não pasteurizado, têm promovido encontros informais denominados “Raw Milk Parties”, eventos com música, celebração e consumo do produto em sua forma bruta, sob o mote de que “beber leite cru = força vital”.
Do ponto de vista sanitário, a reação é firme e fundamentada. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) lembram que o leite cru pode ser veículo de graves doenças de origem alimentar. A pasteurização, salientam os especialistas, é o mecanismo comprovado que remove agentes patogênicos e, desde o início do século XX, reduziu de maneira significativa as enfermidades transmitidas pelo leite.
O alerta do CDC, atualizado em janeiro de 2025 à luz da recente expansão da influenza aviária A(H5N1) entre rebanhos de vacas leiteiras em diversos estados — com casos humanos vinculados — é particularmente explícito: não se deve consumir leite cru contaminado na esperança de gerar anticorpos protetores. Consumir leite cru pode provocar doenças e não constitui medida de imunização.
Entre os microrganismos identificados como risco em leite cru estão Campylobacter, Cryptosporidium, Escherichia coli, Listeria, Brucella e Salmonella. O CDC destaca que grupos vulneráveis — crianças menores de 5 anos, idosos acima de 65, mulheres grávidas e pessoas imunocomprometidas — correm risco aumentado de complicações graves.
Há, portanto, uma tensão dupla: por um lado, a narrativa política que reconstrói hábitos alimentares e revalida o papel dos laticínios como insumo patriotico-cultural; por outro, a resposta técnica de saúde pública que reitera a necessidade da pasteurização como alicerce da segurança alimentar. Em termos de Realpolitik doméstica, trata-se de um movimento que redesenha fronteiras simbólicas entre tradição e ciência — um lance importante no tabuleiro onde se emolduram políticas de identidade e agenda pública.
Como analista, observo que a revitalização do consumo de leite cru funciona como um microcosmo de forças maiores: a busca por autenticidade e autonomia alimentar, o apelo a figuras públicas e mídias oficiais para legitimar práticas, e a erosão potencial dos mecanismos técnicos de proteção coletiva. Em um jogo estratégico, a pasteurização representa a defesa consolidada; o retorno ao cru seria um avanço tático que expõe vulnerabilidades na arquitetura da saúde pública.
Enquanto a sociedade americana debate normas, gosto e tradição, os profissionais de saúde reiteram evidências e recomendações: preferir leite pasteurizado é a opção que mantém os benefícios nutricionais sem os riscos evitáveis de patógenos transmitidos por alimentos. A estabilidade de políticas públicas e a proteção das populações mais frágeis dependem, em última instância, desse equilíbrio entre discurso político e prudência técnica.






















