Por Marco Severini — Em um movimento que procura aliviar tensões e redesenhar, ainda que provisoriamente, as linhas de contato no Oriente Médio, os Estados Unidos e o Irã confirmaram que realizarão conversações sobre o programa nuclear iraniano nesta sexta-feira, em Omã. A data foi definida após dias de acirramento militar no Golfo Pérsico, quando confrontos navais e um incidente aéreo quase empurraram os atores para um conflito aberto.
Fontes diplomáticas citadas pelo site Axios indicam que a administração americana atendeu ao pedido de Teerã para transferir a pauta originalmente prevista para a Turquia. Há, também, discussões em curso sobre a eventual expansão da reunião para incluir outros Estados de maioria muçulmana, um esforço que traduz a tentativa de dar maior amplitude regional à mediação.
O ambiente que cerca esse encontro é tenso: nas últimas 48 horas, motovedetas iranianas protagonizaram manobras de aproximação no Estreito de Hormuz, numa sequência de incidentes que incluiu a derrubada de um drone iraniano Shahed-139 por um caça F-35 embarcado na porta-aviões USS Lincoln. O navio, no momento do evento, estava a cerca de 800 quilômetros da costa sul do Irã. Vídeos e relatos abrem a narrativa de que a aeronave não tripulada teria se aproximado em distância considerada ameaçadora pelas defensivas americanas.
Segundo relato do Wall Street Journal, esses episódios levaram o presidente Donald Trump a ponderar, por algum período, a possibilidade de um retrocesso nas negociações — uma reação compreensível diante do que seria um movimento de risco no tabuleiro estratégico. Ainda assim, a Casa Branca acabou por confirmar a continuidade do diálogo e o próprio presidente declarou: “Quero negociar”.
Na prática, assistimos a uma combinação de dissuasão militar e diplomacia de alta tensão. Israel pressiona por uma postura mais dura contra Teerã — em especial no que toca à política de “enriquecimento zero” e à preocupação com a proliferação de drones e mísseis que poderiam contornar defesas como o Iron Dome. Washington, por sua vez, parece calibrar a resposta para evitar uma escalada que arraste atores regionais e grupos aliados, como os Houthi no Iêmen.
Do lado iraniano, cresce a cautela: reforço de proteção em instalações nucleares e relatos sobre a possibilidade de transferência de urânio enriquecido para fora do país, inclusive com menções a Moscou como destino hipotético. As bases americanas na região foram postas em alerta elevado, e a retórica de ambas as partes revela os alicerces frágeis da diplomacia atual.
Como analista que acompanha a tectônica de poder dessa região, vejo este momento como um lance crítico no tabuleiro — uma combinação de ameaça militar latente e oferta de diálogo. Se bem conduzido, o encontro em Omã pode baixar a temperatura e abrir espaço para negociações técnicas que previnam um colapso maior. Se mal gerido, cada tiro derrubado e cada motovedeta aproximada acrescenta combustível a uma escalada difícil de conter.
Em termos práticos, o que observar: a composição final da delegação em Omã, a eventual inclusão de outros países muçulmanos, e as declarações subsequentes sobre medidas verificáveis de não proliferação. A diplomacia, como no xadrez, requer paciência e a previsão de múltiplos lances adiante. Nesta partida, porém, o custo de um erro é extraordinariamente alto.
Seguiremos acompanhando os desdobramentos com atenção aos sinais de compromisso verificado versus gestos puramente simbólicos que sirvam apenas para ganhar tempo. No front militar, as forças seguem em prontidão; no diplomático, busca-se transformar esta movimentação tática em um caminho sustentável para reduzir o risco de conflito.





















