Em um movimento que revela a fragilidade dos alicerces da diplomacia na região, as conversações entre EUA e Irã voltaram a oscilar entre tentativa de desescalada e demonstração de vetos estratégicos. O encontro inicialmente anunciado para a Turquia acabou, nas últimas horas, reconfigurado para Muscat, no Omã, com data confirmada de 6 de fevereiro — mas a trajetória até essa confirmação expõe mais do que um simples ajuste logístico: desenha uma tensão tectônica entre formatos, agendas e interesses regionais.
A sequência dos fatos é sintomática. Teerã havia solicitado um formato restrito, com sede em Omã e pauta limitada exclusivamente ao dossier nuclear. Washington, por sua vez, exigiu um quadro mais amplo, que incluísse não apenas o programa nuclear, mas também o programa de mísseis balísticos iranianos, o apoio a grupos aliados na região e até o tratamento dos protestos internos. Segundo fontes referidas pela imprensa, os EUA colocaram um ultimato — “ou assim, ou nada” — e a resposta iraniana teria sido igualmente categórica: “então nada”.
Entre esses movimentos de idas e vindas, os Estados do Golfo atuaram como mediadores pressionando pela reabertura do canal diplomático, enquanto, em paralelo, cresce a influência de atores que preferem uma resolução por vias mais duras. Fontes citam que Israel tem exercido pressão sobre Washington no sentido de considerar opções ofensivas, numa demonstração clara de que o tabuleiro de poder regional está longe de estar acomodado.
O restabelecimento dos contactos para Muscat, confirmado na véspera, foi, portanto, resultado de um jogo de interesses: a mediação dos países do Golfo conciliou, temporariamente, as diferenças sobre local e escopo. Ainda assim, o ambiente é de ceticismo. Autoridades norte-americanas e membros do Congresso, como o senador Marco Rubio, manifestaram dúvidas públicas sobre a possibilidade de se chegar a acordos substantivos — uma leitura que reflete a percepção difusa de que as negociações podem servir mais para administrar confrontos do que para sanear as raízes do problema.
O cerne da disputa é conhecido: o equilíbrio entre garantir que o programa nuclear iraniano não produza armas e, simultaneamente, conter a capacidade de projecção de Teerã na região via mísseis balísticos e milícias aliadas. Em termos de estratégia, trata-se de dois tabuleiros interligados: mover uma peça — por exemplo, concessões nucleares — sem limitar a outra — capacidade balística e influência regional — deixa uma lacuna que pode ser explorada por atores revisionistas.
Do ponto de vista diplomático, o que se joga em Muscat não é apenas um acordo técnico, mas a recomposição de um jogo de confiança mínimo entre potências que se observam com desconfiança histórica. A própria alternância de locais e formatos revela a retórica realista que impera: cada concessionário teme ceder demasiado sem garantias tangíveis.
As próximas horas serão, portanto, decisivas para entender se a iniciativa servirá apenas para postergar decisões críticas — um adiamento calculado no tabuleiro — ou se poderá estabelecer um primeiro trilho para negociações futuras, onde nuclear, mísseis e esfera regional sejam tratados como variáveis de um mesmo problema estratégico. A natureza das delegações, o grau de inclusão de atores regionais e a disposição a aceitar mecanismos de verificação serão os indicadores a observar com atenção.
Em suma, a reabertura dos contactos em Omã é um reflexo das pressões convergentes: países do Golfo em busca de estabilidade, Washington dividida entre diplomacia e contenção, e um Irã que procura proteger espaços de manobra. No final, o resultado dependerá da capacidade dos negociadores de transformar movimento em balanço — e não em mera troca de ameaças. Um movimento decisivo no tabuleiro, ou apenas mais um lance numa partida que se arrasta.





















