Por Marco Severini – Espresso Italia
Em um movimento que redesenha, ainda que cautelosamente, os limites da atual tectônica de poder regional, começaram em Muscat, no Omã, os coloquios bilaterais entre EUA e Irã sobre o controverso programa nuclear de Teerã. A agência Mehr reportou que as conversações são presididas pelo ministro das Relações Exteriores iraniano, Seyed Abbas Araghchi, e pelo enviado especial americano, Steve Witkoff, com o Sultanato de Omã atuando como mediador.
A delegação iraniana traz figuras de peso técnico e diplomático: Majid Takht Ravanchi (vice‑ministro para Assuntos Políticos), Kazem Gharibabadi (vice‑ministro para Assuntos Jurídicos e Internacionais), Hamid Ghanbari (vice‑ministro para Diplomacia Econômica) e o porta‑voz do ministério, Esmail Baqaei. Pelo lado americano, Witkoff foi acompanhado por conselheiros próximos à administração, entre eles Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, além de outros diplomatas.
Trata‑se do primeiro contato formal desse tipo entre os dois históricos adversários desde junho de 2025, quando os EUA integrarammilitarmente a campanha de Israel contra o Irã, inclusive com ataques a instalações nucleares iranianas. O encontro ocorre em um ambiente de tensão elevada: Washington reforçou sua presença naval no Oriente Médio e posicionou um grupo de porta‑aviões após a violenta repressão às manifestações que eclodiram no Irã no início de janeiro — protestos que, segundo organizações de direitos humanos, teriam causado milhares de mortos.
Araghchi, que chegou a Omã no dia anterior, foi claro ao afirmar que sente a “responsabilidade de não perder nenhuma oportunidade de usar a diplomacia” para preservar a paz, pedindo que os EUA participem das conversações com “responsabilidade, realismo e seriedade”. Do lado americano, a retórica pública do presidente Trump oscilou entre a exibição de força — referida por ele como uma “grande frota” encaminhada para a região — e a declaração de que agora estão “negociando”.
Enquanto isso, a chamada “embaixada virtual” dos EUA no Irã renovou seu alerta para cidadãos norte‑americanos, recomendando que deixem o país e que planejem rotas alternativas por terra para Armênia ou Turquia. O aviso enfatiza a possibilidade de interrupções na internet, cancelamentos de voos com pouco aviso e a necessidade de não depender exclusivamente da assistência do governo americano — uma mensagem que ecoa os comunicados emitidos nos dias mais críticos das manifestações de janeiro.
O deslocamento das prioridades do discurso americano, que após ameaças iniciais de uso da força passou a se concentrar — em grande medida — no controle do programa nuclear iraniano, revela um jogo de xadrez estratégico: ambas as partes testam movimentos sem, por ora, derrubar as peças mais valiosas. A mesa de Muscat representa uma oportunidade diplomática que, se bem aproveitada, pode evitar um escalonamento militar com consequências regionais e globais.
Entretanto, os riscos permanecem palpáveis. A combinação de memória recente de ataques, pressões internas no Irã após a repressão às manifestações e a presença militar americana cria um tabuleiro onde cada passo exige cálculo e contenção. Omã, historicamente um facilitador discreto, assume agora o papel de anfitrião de um encontro que pode definir os próximos meses da estabilidade no Golfo Pérsico.
Como analista, mantenho uma leitura conservadora: esta negociação é um movimento decisivo, mas não definitivo. A diplomacia abre fendas nos alicerces frágeis das hostilidades; se for conduzida com realismo e reciprocidade, pode ampliar zonas de contenção. Se falhar, a escalada continuará a ser a alternativa mais perigosa. O resultado dependerá tanto da habilidade técnica das delegações quanto da disciplina estratégica das lideranças políticas.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.






















