Por Marco Severini — Em um movimento que combina prudência diplomática e tensão estratégica, delegações dos EUA e do Irã reúnem-se amanhã em Ginebra, sob a mediação do Omã, para prosseguir negociações sobre o dossier nuclear iraniano. O encontro ocorrerá na embaixada do Sultanato, repetindo o papel de facilitador que Muscat vem desempenhando nas conversas com Washington.
Na véspera do segundo round, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, manteve um encontro técnico com o diretor-geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi. Ambos relataram diálogos aprofundados: Grossi falou de “discussões técnicas substantivas” preparatórias para as negociações, enquanto Araghchi confirmou a abertura de Teerã a um diálogo com o organismo de controle das Nações Unidas.
Essa disposição traduz-se em um gesto concreto: o Irã acena a possibilidade de permitir inspeções em seus sítios nucleares por parte da AIEA. Contudo, a própria delegação iraniana define o ambiente negocial como de “máxima suspeita e desconfiança” — uma admissão franca de que as interações, embora necessárias, se dão sobre alicerces frágeis da diplomacia.
O papel do Omã permanece central. O ministro omanita, Badr al-Busaidi, encontrou-se com Araghchi, reiterando o compromisso do Sultanato em atuar como mediador discreto. Essa geometria de mediação lembra uma partida de xadrez em que o tabuleiro é a estabilidade regional: movimentos públicos e discretos se intercalam, cada gesto calibrado para evitar escaladas.
Ao contexto diplomático somam-se sinais militares e políticos que mantêm a tensão elevada. Reportes internacionais apontam para o deslocamento do porta-aviões USS Ford, movimento que analistas associam à pressão de aliados regionais, notadamente Israel, que tem exortado uma postura mais agressiva contra Teerã. Figuras políticas em Washington, por sua vez, já projetam cenários de operações prolongadas caso o confronto venha a se tornar aberto; no espectro político, ex-presidenciais e líderes regionais emitem advertências e exigências.
Esses elementos compõem uma tectônica de poder — um redesenho de fronteiras invisíveis entre dissuasão, negociação e contingência militar. O Irã, ao permitir a AIEA aproximar-se de seus sítios nucleares, procura equilibrar a necessidade de redução da pressão internacional com a preservação de sua soberania e capacidade de dissuasão. Washington, por outro lado, navega entre a opção diplomática e a manutenção de opções militares, conscientes de que um confronto direto poderia transformar-se em um confronto prolongado.
Na prática, as conversas em Ginebra serão um teste de confiança técnica num cenário onde a confiança é escassa. Espera-se que os pontos em pauta incluam o escopo e a frequência das inspeções, a natureza das garantias tecnológicas e mecanismos de verificação e, implicitamente, calendários políticos que permitam a ambas as partes preservar espaços de manobra.
Como analista, vejo estas sessões como um movimento decisivo no tabuleiro: não necessariamente um xeque-mate, mas uma tentativa de reposicionar peças antes de qualquer confronto maior. A diplomacia atua aqui como arquitetura clássica — tentativa de consolidar fundamentos antes que eventuais choques arquitetem consequências mais amplas. O resultado imediato é incerto, mas o fato de as conversas prosseguirem e de haver abertura técnica para inspeções sinaliza que, mesmo em clima de profunda desconfiança, os canais de diálogo permanecem operantes.
O que acontecerá em Ginebra poderá redesenhar trajetórias de política externa na região e definir, por algum tempo, a inteligência estratégica entre contenção e escalada. Observadores internacionais acompanharão de perto o desdobrar das reuniões, enquanto na arena militar e política cada movimento continuará sendo pesado com a cautela própria de um jogo de alto risco.





















