Por Marco Severini – Espresso Italia
Na sessão matinal do terceiro ciclo de negociações entre Estados Unidos e Irã, mediado pelo Omã em Genebra, Washington apresentou uma proposta de caráter absolutamente rígido e transformador para o equilíbrio regional. Segundo fontes diplomáticas citadas pelo Wall Street Journal, os Estados Unidos exigiram o desmantelamento dos principais sítios nucleares iranianos — Fordow, Natanz e Isfahan —, a transferência do estoque de urânio enriquecido para território norte-americano e a aceitação de um compromisso permanente de enriquecimento zero por tempo indefinido.
O documento norte-americano, descrito por interlocutores como um verdadeiro diktat, busca instalar uma barreira legal e física às capacidades nucleares iranianas, transformando o campo de jogo em uma configuração de longo prazo que, se aceita, redesenharia fronteiras invisíveis da tecnologia nuclear. Esse movimento equivale a um lance estratégico no tabuleiro de xadrez geopolítico: não apenas desmonta peças-chave do oponente, mas desloca recursos sensíveis para além do alcance regional.
Do lado iraniano, as divergências permanecem profundas. Informações indicam que a República Islâmica tentará explorar a afinidade negociadora do presidente norte-americano oferecendo compensações econômicas substanciais a Washington — especialmente através de investimentos e direitos sobre reservas de petróleo, gás e minerais estratégicos. A oferta iraniana, descrita como direta ao presidente, seria uma “manna econômica” que atrairia interesses comerciais americanos em troca de garantias de não agressão.
Washington, por sua vez, condiciona um alívio das sanções a uma verificação rigorosa e faseada do cumprimento dos compromissos, mantendo restrições iniciais e demandando que qualquer nova arquitetura de controle permaneça em vigor indefinidamente. Essa exigência supera a lógica do acordo de 2015 (JCPOA), cujo modelo incluía prazos de expiração para certas limitações; aqui, a proposta é construir alicerces permanentes para prevenir um ressurgimento nuclear.
Ao longo das conversas em Genebra também emergiu o pano de fundo militar e dissuasório que acompanha a diplomacia: a presença projetada da superporta-aviões USS Gerald Ford no entorno do Mediterrâneo, deslocamentos de forças norte-americanas no Oceano Índico e prontidão de bombardeiros estratégicos B-2 foram citados como elementos de pressão e demonstração de capacidade. Em termos de estratégia, trata-se da combinação clássica entre sanções, garantias verificáveis e sombra militar — uma tríade destinada a moldar decisões no centro do poder do Irã.
Analiticamente, a proposta norte-americana revela intenção clara de reconfigurar a tectônica de poder nuclear regional. Se Teerã rejeitar o pacote, o impasse levará a um aumento da tensão e a nova rodada de iniciativas de contenção; se aceitar, abrir-se-á uma nova fase de supervisão e influência externa com efeitos duradouros. Em ambos os cenários, o equilíbrio do tabuleiro foi alterado — e as peças seguirão sendo movidas de forma cautelosa, sabedora de que qualquer erro estratégico terá custos elevados.
Em suma, as negociações em Genebra ilustram uma diplomacia em modo transitório entre pressão máxima e negociação pragmática, onde a capacidade de verificação e a definição de prazos (ou a ausência deles) serão determinantes para o futuro do arcabouço de não proliferação na região.






















