Roma — Os Estados Unidos propuseram que a Itália integre, na condição de membro fundador, a Força Internacional de Estabilização destinada à Gaza. A oferta, segundo reportou a agência Bloomberg a partir de fontes governamentais, foi formalmente apresentada à primeira-ministra Giorgia Meloni em reunião na Farnesina esta semana; até o momento, entretanto, não houve uma resposta oficial de Roma.
Fontes consultadas por Bloomberg indicam que a iniciativa não envolve, à primeira vista, o envio de contingentes militares italianos. O desenho proposto privilegia funções de formação, monitoramento e apoio civil — uma arquitetura operacional que, nas palavras do Ministério das Relações Exteriores italiano, poderia ser coerente com o trabalho já desenvolvido no terreno.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, havia antecipado, em 20 de novembro, a disponibilidade italiana para capacitar forças de segurança palestinas. Tajani lembrou que a Itália já treina agentes de polícia palestinos na Cisjordânia sob a égide da missão europeia EUPOL COPPS, e que Roma estaria em condições de formar, caso necessário, uma futura polícia para a Faixa de Gaza constituída a partir de efectivos procedentes de países vizinhos, como Egito ou Jordânia.
Procurado, o governo italiano declinou comentar as informações veiculadas por Bloomberg, e o Ministério das Relações Exteriores não respondeu às solicitações de esclarecimento. Do lado americano, a porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, não confirmou explicitamente se um convite formal foi encaminhado a Roma, limitando-se a afirmar que Washington mantém negociações com vários parceiros interessados em participar dos esforços de estabilização na região.
Na prática, a proposta americana insere-se numa tentativa de criar um mecanismo internacional de gestão pós-conflito na Gaza, onde a lógica predominante é a de estabilização civil e institucional, e não a de ocupação militar prolongada. Para países como a Itália, a decisão sobre adesão é um movimento delicado no tabuleiro diplomático: envolve o equilíbrio entre a solidariedade transatlântica, a coesão europeia e a gestão dos riscos políticos domésticos.
Do ponto de vista estratégico, aceitar o papel de membro fundador significaria para Roma posicionar-se na vanguarda de um redesenho de influência na região, contribuindo para alicerçar instituições locais (força policial, serviços públicos, reconstrução) em vez de apenas fornecer retórica política. Recusar, por outro lado, preserva autonomia política perante sectores sensíveis do eleitorado e evita associações indesejadas com iniciativas externas cuja legitimidade e mandato ainda estão em disputa.
Como analista, observo que esta proposta é um movimento decisivo no tabuleiro: redesenha fronteiras invisíveis de autoridade e poder em torno da Gaza, ao mesmo tempo em que testa a capacidade da União Europeia e de seus membros de convergir em torno de um projeto de estabilização liderado — ou fortemente incentivado — pelos Estados Unidos. A escolha de Roma terá repercussões sobre a arquitetura de segurança regional e sobre a relação privilegiada entre Itália e aliados transatlânticos.
Permanece, portanto, a expectativa por uma posição clara de Giorgia Meloni e de seus ministros: uma decisão que inevitavelmente será lida no contexto mais amplo da tectônica de poder entre atores regionais e globais.






















