Por Marco Severini — A arquitetura da tensão entre Estados Unidos e Irã mostra fissuras profundas: os recentes diálogos bilaterais não produziram resultados capazes de impedir um movimento mais agressivo de Washington. A paciência do presidente Trump, segundo interlocutores da Casa Branca, está no limite, e a diplomacia — ainda que formalmente priorizada — convive hoje com uma crescente preferência pela opção militar.
Em Genebra, os contatos entre delegações de Washington e Teerã não geraram uma “fumata bianca”: o intercâmbio permaneceu superficial e as distâncias sobre pontos essenciais do programa nuclear iraniano continuam amplas e possivelmente intransponíveis. Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, sintetizou o tom do executivo: a diplomacia é sempre a primeira via, mas seria sensato ao Irã aceitar um acordo com esta administração — uma declaração que funciona também como ultimato implícito.
Fontes da administração deixam transparecer que o presidente “está consultando muitas pessoas, inclusive sua equipe de segurança nacional”, e que toma “muito a sério” esses contactos, priorizando os interesses dos Estados Unidos, das Forças Armadas e do povo americano. A Casa Branca reforça que existem inúmeras razões justificando um ataque ao Irã caso as negociações não avancem. “Houve um pequeno progresso nos diálogos — admite a porta-voz —, mas permanecemos muito distantes em várias questões”. Sobre prazos, a retórica evita declarar uma deadline formal; porém, vazamentos indicam que Teerã teria até o fim do mês para aceitar um pacote significativo de concessões.
Complementando esse quadro está a reportagem do veículo americano Axios, que aponta: a administração estaria mais próxima de um conflito em larga escala no Oriente Médio do que o público norte-americano imagina. O plano em discussão não seria uma operação cirúrgica limitada, mas uma campanha massiva e potencialmente duradoura, possivelmente coordenada com Israel, com implicações existenciais para o regime de Teerã — bem além da curta guerra de 12 dias protagonizada por Israel no verão passado.
Fontes israelenses assinalam que o governo de Benjamin Netanyahu estaria se preparando para um cenário de hostilidades “em poucos dias”; em Washington, estimativas variam entre semanas e um horizonte mais imediato. Um conselheiro de Trump afirmou que “o chefe está se impacientando”, estimando em 90% a probabilidade de ação militar nas próximas semanas, caso os diálogos não entregue avanços concretos.
Do lado oficial, Chris Wright, secretário americano da Energia, reiterou em Paris, à margem de reuniões da Agência Internacional de Energia (AIE), que os EUA, “de uma forma ou de outra”, impedirão o Irã de se armar com ogivas nucleares. As declarações, duras, sublinham a disposição de Washington em recorrer a meios não diplomáticos se necessário.
O resultado é uma tectônica de poder em movimento: a crescente fibrilação em Israel, a pressa administrativa em Washington e o ultimato velado em Genebra configuram um tabuleiro onde um movimento decisivo pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência no Oriente Médio. Para além das movimentações de curto prazo, permanece a questão estrutural — como evitar que uma campanha militar, mesmo com objetivos restritos, abra uma nova e mais perigosa fase de instabilidade regional.
Em suma, os alicerces da diplomacia estão frágeis, e o risco de escalada cresce: resta ainda uma margem para negociação, mas o relógio geopolítico avança, e cada lance no tabuleiro pode ser definitivo.






















