Por Marco Severini — Em um movimento estratégico que redesenha peças sobre o tabuleiro da geoeconomia, os Estados Unidos convocaram em Washington uma reunião ministerial com aliados para enfrentar o que definem como o monopólio de facto da China sobre os minerais críticos e as terras raras, insumos essenciais à indústria tecnológica e à segurança econômica global.
O encontro tem caráter multilaterai e visa estabelecer um quadro de cooperação capaz de criar “fontes de abastecimento alternativas” e de proteger “cada etapa da produção contra interrupções não mercantis”, como ressaltaram autoridades americanas presentes. Entre os participantes, foi citado o apoio político expresso por lideranças do Congresso, incluindo o senador Marco Rubio, e propostas audaciosas defendidas pelo senador J.D. Vance.
Vance propôs a constituição de uma espécie de “zona de troca preferencial”, protegida contra interferências externas por meio de preços mínimos vinculantes, um instrumento que pretende restaurar a competitividade do mercado global de minerais críticos. A ideia é conferir estabilidade de preço e previsibilidade às cadeias produtivas que dependem dessas matérias-primas, reduzindo a vulnerabilidade estratégica das economias ocidentais.
Segundo comunicados oficiais, já são 55 os parceiros engajados no processo, com outros Estados manifestando interesse em aderir progressivamente. A ambição declarada é criar plataformas de coordenação de políticas que garantam a todos os cidadãos “um acesso abundante e conveniente” a esses minerais essenciais, formando um mecanismo prático para devolver ao mercado internacional condições mais saudáveis e competitivas.
A Itália marcou presença com o vice-premier e ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, que sublinhou o desejo de Roma de desempenhar um “papel chave”. Tajani lembrou que as matérias-primas críticas são fundamentais para países industriais como a Itália — a qual, nas suas palavras, é a segunda potência industrial europeia e a quarta potência comercial mundial — e enfatizou que a competitividade das empresas nacionais está em jogo.
O ministro italiano apontou para a necessidade de concertação com países africanos, latino-americanos e parceiros asiáticos, na construção de um mercado alternativo e diversificado. Em paralelo, anotou-se uma iniciativa conjunta entre Itália e Alemanha dirigida à Comissão Europeia, visando um posicionamento comunitário mais robusto sobre a temática e a mitigação das dependências estratégicas.
Na visão de Tajani, a União Europeia deve buscar uma “estratégia comum” que permita ao continente manter-se competitivo, trabalhando com os Estados Unidos, o G7, a Índia e outros atores interessados num mercado livre de matérias-primas que também contribua para estabilizar preços. A Itália ofereceu ainda a sua experiência no campo do reciclagem, considerado um elemento vital para reforçar a sustentabilidade e a resiliência das cadeias de abastecimento.
Um primeiro fruto diplomático deste impulso foi o comunicado conjunto entre UE, Estados Unidos e Japão, no qual se anuncia a intensificação dos esforços de cooperação visando uma “parceria mutuamente vantajosa”. As partes se comprometeram a trabalhar para concluir, nos próximos 30 dias, um memorando de entendimento entre Bruxelas e Washington destinado a fortalecer a segurança das cadeias de suprimento de minerais críticos.
Em termos estratégicos, trata-se de um movimento calculado: não uma ruptura abrupta com a China, mas um redesenho cuidadoso das rotas de fornecimento e das salvaguardas institucionais que regem o comércio desses insumos. Como em uma partida de xadrez de alto nível, os aliados buscam criar alternativas e controlar pontos-chave do tabuleiro industrial, preservando a estabilidade dos mercados e a autonomia tecnológica.
O desafio adiante será transformar intenções em infraestrutura real — investimentos em mineração, logística, processamento e reciclagem — e coordenar políticas públicas para que a tectônica de poder resultante não promova distorções substitutas, mas sim cadeias seguras, competitivas e sustentáveis.






















