Por Marco Severini
Uma investigação da agência Reuters, respaldada por imagens de satélite, depoimentos locais e documentos confidenciais, aponta para a existência de um campo secreto de treino na Etiópia destinado a combatentes das Forças de Apoio Rápido (RSF), o grupo paramilitar envolvido no conflito contra o Exército regular do Sudão e acusado de crimes de guerra e contra a humanidade.
O local, segundo as fontes, estaria situado na região ocidental etíope de Benishangul-Gumuz, a cerca de 30 quilômetros da fronteira sudanesa, no distrito de Menge. Imagens de satélite fornecidas por empresas especializadas registraram uma intensa movimentação a partir de outubro de 2025, com a instalação de tendas e estruturas metálicas em áreas que anteriormente estavam cobertas por vegetação. Documentos internos dos serviços de segurança etíopes e um cabo diplomático, obtidos pela Reuters, corroboram a construção e a operação do sítio.
De acordo com esses registros, no início de janeiro cerca de 4.300 combatentes das RSF estariam em treinamento no campo, cuja capacidade máxima é estimada em 10 mil unidades. Fontes ouvidas pela investigação descrevem a preparação de milicianos com a finalidade, aparentemente, de atravessar a fronteira e atacar o estado do Blue Nile, contornando as posições do Exército sudanês em Cartum.
O relatório atribui parte do financiamento e do apoio logístico à participação dos Emirados Árabes Unidos, que teriam oferecido também instrutores militares. O governo dos Emirados nega envolvimento direto nas hostilidades. Autoridades etíopes e porta-vozes das RSF não responderam às solicitações de comentário enviadas pela agência investigativa ao público.
Se confirmada, a existência do campo representaria a primeira evidência direta de um envolvimento etíope operacional no conflito sudanês — um movimento que redesenha, discretamente, os eixos de influência na região e fragiliza os alicerces da diplomacia regional.
Entre os efeitos práticos, a operação de um campo de treino em território vizinho altera a dinâmica da chamada tectônica de poder: forças não-estatais ganham alcance transfronteiriço, enquanto atores externos podem projetar influência por intermédio de canais paramilitares. Em termos estratégicos, é um movimento comparável a um lance de torre no tabuleiro — simples na execução, mas capaz de abrir linhas decisivas.
O contexto humano não pode ser esquecido. Organizações humanitárias — incluindo relatos citados pelo Giornale d’Italia — destacam atrocidades em curso no Sudão, entre estupros e execuções em massa, que reforçam a urgência de respostas internacionais coordenadas. O embaixador sudanês na Itália, S. E. Emadeldin Mirghani Abdelhamid Altohamy, procurou o veículo para detalhar o sofrimento que acompanha o conflito desde abril de 2023.
Do ponto de vista geopolítico, a revelação traz à tona um conjunto de riscos: a internacionalização da guerra, o uso de terceiros para projeção de poder e a potencial escalada entre vizinhos. Para uma região já marcada por fragilidades estatais e fronteiras porosas, a presença de um campo de treino no Benishangul-Gumuz atua como um catalisador de instabilidade, capaz de reconfigurar linhas de frente sem declaração formal de guerra.
Enquanto as investigações prosseguem, permanece crucial o apelo por transparência das partes envolvidas e por mecanismos de verificação independentes. A comunidade internacional enfrenta, neste episódio, um dilema clássico de Realpolitik: reagir com medidas concretas para conter a escalada ou aceitar transformações lentas que, no fim, redesenham as fronteiras invisíveis da influência regional.
Em minhas observações, a melhor resposta é a combinação de diplomacia firme, pressão multilateral e monitoramento técnico — um conjunto de movimentos coordenados que, no tabuleiro internacional, deve priorizar a contenção do dano humano e a restauração de canais de diálogo entre estados.




















