Por Marco Severini — A trajetória das ambições norte-americanas sobre a Groenlândia é longa e coerente: mais de um século e meio de leituras estratégicas que unem a defesa do Continente Norte-americano, o controle do Atlântico Setentrional e, mais recentemente, o interesse por rotas árticas e recursos. O fenômeno deve ser lido como um redimensionamento contínuo do eixo de influência numa região cujo valor militar e geopolítico cresce com o derretimento dos gelos e a militarização espacial.
Apresento a seguir uma cronologia analítica dos principais episódios que moldaram essa presença, pensando na Groenlândia não apenas como território, mas como um nó estratégico cuja posse e uso representam um movimento decisivo no tabuleiro da segurança atlântica.
- 1867-1868 — Após a compra do Alasca, em Washington amadurece a consciência da importância do Ártico. Um relatório governamental identifica a Groenlândia e a Islândia como peças essenciais para a expansão estratégica e comercial no Norte do Atlântico.
- 1910-1916 — Nos canais diplomáticos surgem propostas e esquemas de troca envolvendo a ilha. Não houve resultados imediatos, mas o interesse reaparece, denotando uma visão de longa duração sobre o papel da região.
- 1941 — No auge da Segunda Guerra Mundial, EUA e Dinamarca acertam medidas de defesa para a Groenlândia. Washington obtém direitos para instalar bases e infraestruturas defensivas, visando proteger rotas e o flanco norte do Atlântico.
- 1946 — No pós-guerra, a administração Truman avalia formalmente a compra da Groenlândia. A ilha é caracterizada como um ponto-chave para sistemas de alerta prévio e vigilância no Atlântico Norte.
- 1951 — Um novo acordo, agora no quadro da OTAN, consolida a presença americana e firma a cooperação com a Dinamarca. A postura militar norte-americana na ilha passa a integrar a arquitetura de segurança transatlântica.
- 1968 — O acidente do B-52 próximo a Thule, com armamento nuclear a bordo, provoca um choque e relança o debate sobre os riscos e implicações da presença militar americana.
- 2019 — No primeiro mandato de Trump, volta à tona a proposta pública de compra da ilha. A Dinamarca e a liderança groenlandesa respondem que a Groenlândia não está à venda, e a crise diplomática resulta até no cancelamento de uma visita presidencial.
- 2020 — Washington amplia iniciativas civis e diplomáticas, fortalecendo canais diretos com Nuuk e propondo programas econômicos e de cooperação.
- 2021 — Reabertura do consulado dos EUA em Nuuk, sinal de uma presença política mais complexa e de um esforço direto de relacionamento com as autoridades locais.
- 2023 — A base de Thule é renomeada Pituffik Space Base, o que sublinha a crescente interseção entre vigilância espacial e arquitetura de defesa no Ártico.
- 2024-2025 — No segundo mandato que se inicia, o tema reaparece com ênfases diversas: termos como controle e necessidade estratégica são invocados por Washington, enquanto Nuuk reafirma a soberania e a disposição para cooperar em defesa e desenvolvimento econômico.
Essa sequência revela que a política americana em relação à Groenlândia é menos uma sucessão de improvisos do que um projeto de longo prazo, com episódios espetaculares e etapas discretas, todas guiadas pela mesma lógica: assegurar corredores estratégicos, antecipar ameaças e manter linhas de alarme precoce no Atlântico Norte. Para observadores da tectônica de poder, a ilha funciona como um baluarte cuja posse não precisa ser total para influenciar profundamente a geopolítica regional.
Como um jogador experiente do tabuleiro internacional, Washington combina diplomacia, acordos de defesa e presença civil para moldar um ambiente favorável aos seus interesses. A Dinamarca e a administração groenlandesa, por sua vez, procuraram equilibrar soberania, desenvolvimento local e benefícios de parcerias estratégicas. Esse é o alicerce frágil e, simultaneamente, resiliente da diplomacia na região: cada movimento altera linhas de influência sem necessariamente redesenhar fronteiras materiais, mas redesenha fronteiras invisíveis de segurança e cooperação.































