Por Marco Severini — Relatos de fontes de segurança europeias ao Financial Times indicam que a guerra híbrida entre Moscou e o Ocidente ganhou um novo palco: o espaço orbital. Dois veículos russos, identificados como Luch-1 e Luch-2, teriam se aproximado e interceptado, por anos, as comunicações de pelo menos uma dúzia de satélites considerados chave para a Europa.
As operações, não previamente divulgadas, não se limitariam a uma simples escuta. Segundo autoridades consultadas pelo jornal londrino, a capacidade de ficar fisicamente perto dos satélites europeus pode permitir não apenas a captação de dados sensíveis, mas também a tentativa de influenciar ou até manipular as correções orbitais — o que, em última instância, poderia provocar o desalinhamento, a inutilização ou até a queda dessas plataformas.
O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, sintetizou o alerta com frieza institucional: «As redes satelitais são o calcanhar de Aquiles das sociedades modernas. Quem as ataca pode paralisar nações inteiras». A declaração evidencia a percepção de que as atividades atribuídas à Rússia configuram uma ameaça estratégica que extrapola o campo estritamente militar e atinge a infraestrutura civil e governamental.
De acordo com o chefe do comando espacial do Exército alemão, Michael Traut, os veículos russos teriam interceptado o chamado «ligação de comando» — o canal que permite aos controladores em solo enviar instruções de manobra e correção orbital. Com acesso a esses sinais, um ator hostil poderia tentar imitar operadores terrestres e enviar comandos falsos para alterar trajetórias ou desestabilizar satélites.
Fontes especializadas em rastreamento orbital apontam que o Luch-2, lançado em 2023, se aproximou de pelo menos 17 satélites geostacionários europeus, com foco em operadores sediados em países da NATO. Paralelamente, Moscou teria colocado em órbita novos ativos de reconhecimento com capacidades semelhantes. Já o Luch-1 teria sofrido uma anomalia no final de janeiro, com sinais de possível fragmentação, o que levanta novos riscos de detritos orbitais.
O Financial Times ressalta também uma fragilidade tecnológica: muitos satélites europeus mais antigos não dispõem de sistemas de criptografia robustos, tornando-os mais vulneráveis à intercepção e à falsificação de comandos. A combinação de capacidades técnicas avançadas e de uma postura mais agressiva por parte de Moscou forma, segundo analistas, um padrão coerente com a intensificação da chamada «guerra híbrida» russa.
Como analista com olhar de tabuleiro, é preciso perceber esse episódio sob duas perspectivas complementares. Primeiro, trata-se de um movimento tático no tabuleiro mondial: a exploração do espaço como extensão natural da arenas de influência terrestre. Segundo, é um sinal do redesenho das linhas de segurança — os «alicerces» da diplomacia e da defesa que, até então, repousavam sobre conectividade satelital e garantias técnicas.
As implicações práticas são claras e exigem respostas coordenadas. Europa e aliados devem priorizar a modernização de protocolos de criptografia, ampliar capacidades de vigilância espacial e criar regras de engajamento que tornem custos e riscos para operações desse tipo inaceitáveis. A diplomacia, por sua vez, precisa traçar limites jurídicos e normativos para o uso de ativos em órbita, evitando que a tectônica de poder se traduza em confrontos abertos ou em uma cascata de detritos que prejudique todos os atores.
Em suma, o que está em jogo é menos uma única manobra orbital e mais o princípio de segurança das infraestruturas críticas. Como em uma partida de xadrez de alto nível, a jogada russa revela intenção e capacidades; cabe ao bloco europeu responder com estratégia, resiliência e alianças que recuperem o equilíbrio no espaço comum.


















