Por Marco Severini, Espresso Italia — Nos primeiros dias do confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã, milhares de mísseis, foguetes e drones foram efetivamente consumidos em uma sucessão intensa de ataques e defesas — um movimento que redesenha, no imediato, o mapa logístico do conflito.
Embora conheçamos com razoável precisão o posicionamento de forças em termos de homens, aviões e navios, permanece um véu sobre os volumes reais de munições nos arsenais — dos mísseis aos drones. As reservas e as linhas de abastecimento não decidirão sozinhas o desfecho, mas constituem um fator estratégico de primeira ordem, capaz de moldar a duração e a intensidade das operações.
O Institute for National Security Studies (INSS), de Tel Aviv, estima que Estados Unidos e Israel já tenham realizado mais de 2.000 ataques, cada qual consumindo múltiplas munições. Segundo o mesmo instituto, o Irã respondeu com 571 mísseis e 1.391 drones, muitos dos quais foram neutralizados por defesas e intercepções. Para ambas as partes, sustentar esse ritmo elevado será cada vez mais difícil à medida que a campanha se prolonga.
Antes das hostilidades, avaliava-se que o Irã possuía mais de 2.000 mísseis balísticos de curto alcance. Exércitos raramente divulgam números precisos de estoques porque esses dados constituem vantagem competitiva. O comandante em chefe estadunidense, general Dan Caine, relatou uma redução de 86% nos lançamentos de mísseis iranianos em relação ao primeiro dia de combates; o CENTCOM apontou um recuo de 23% nas últimas 24 horas. Os lançamentos de drones teriam caído 73% desde o início do conflito.
Parte dessa retração pode ser deliberada — um gesto tático para preservar reservas —, mas também reflete a crescente dificuldade em manter cadência de produção e em repor estoques sob um regime de supremacia aérea adversária. As forças aéreas estadunidense e israelense alcançaram agora uma condição de supremacia aérea sobre o território iraniano, com a maioria das defesas antiaéreas de Teerã significativamente degradadas. A força aérea iraniana deixou de ser, na prática, um instrumento credível.
Na lógica do próximo movimento do tabuleiro, as operações vão se concentrar na identificação e neutralização de lançadores de mísseis e drones, de suas linhas de escolta e das instalações industriais que sustentam a produção. Destruir pontos de lançamento é hoje tarefa prioritária, mas, como em um xeque numa posição complexa, tomar o rei exige controlar antes as casas ao redor: depósitos subterrâneos, corredores logísticos e centros de fabricação.
Mesmo assim, a geografia é um fator que joga a favor do Irã. Com área cerca de três vezes maior que a França, o país oferece vastos esconderijos e corredores difíceis de atacar exclusivamente por via aérea. Estoques dispersos, equipamentos enterrados e redes de apoio locais tornam a erradicação completa das munições um objetivo exigente, que exigirá persistência, inteligência humana e pressão conjunta sobre cadeias de abastecimento.
Em termos estratégicos, o conflito entra agora em uma fase em que a tectônica de poder será definida tanto pela capacidade de fogo imediato quanto pela resiliência logística de longo prazo. Se a administração dos estoques determinará o ritmo dos combates, o controle das rotas de produção e dos centros de manutenção definirá, discretamente, o novo alinhamento de poder na região.
Resumo: o consumo acelerado de munições já impõe restrições operacionais; a supremacia aérea favorece ações de desarticulação das capacidades iranianas, mas a extensão territorial e a dispersão dos estoques tornam improvável uma eliminação total e imediata das reservas adversárias. O conflito, assim, desloca-se do confronto aberto para uma guerra de atrito logístico e de inteligência — um jogo de xadrez em múltiplas frentes.






















