Marco Severini — Em um movimento que reacende antigas dúvidas sobre os alicerces da nossa compreensão das crises sanitárias, documentos liberados pelo Department of Justice (DOJ) e publicados recentemente mostram que o nome de Bill Gates aparece associado a e-mails trocados com o acervo de Jeffrey Epstein datados de 2015 e 2017. As mensagens, parcial e formalmente desclassificadas, trouxeram à tona referências a preparativos e a simulações de cepas pandêmicas anos antes do surto de Covid‑19.
Os registros em questão não provam, per si, qualquer vínculo criminoso ou uma conspiração contra populações. Ainda assim, do ponto de vista geopolítico — e como analista que observa o tabuleiro do poder — é inevitável tratar essas comunicações como peças de um jogo maior, onde prevenção, influência e informação se entrelaçam. Há duas missivas que chamaram atenção: uma de 2015, intitulada “Preparing for pandemics”, com uma agenda para uma reunião de preparação que menciona envolvimento formal da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha; e outra, de 2017, que inclui recomendações técnicas para simulações de “strain pandemic simulation” (simulação de um ceppo/cepa pandêmica), avaliação de custos em saúde, e pesquisas em áreas como neurotecnologia.
O conteúdo — parcialmente redigido em trechos e com remetentes obscurecidos — levou veículos como Izvestia e outros a especularem que o autor de algumas mensagens poderia ser o próprio Bill Gates. Importa sublinhar aqui, com a sobriedade que um diplomata da informação exige: não há, nos documentos tornados públicos, prova categórica de que Gates e Epstein arquitetaram um plano para produzir ou liberar um agente patogênico. O mais prudente é ler esses papéis como indícios de que atores influentes debatiam, já na década anterior à pandemia, formas de aprimorar a resiliência dos sistemas de saúde e de testar respostas a cenários extremos.
Essa leitura técnica ganha contornos históricos quando se recorda do Event 201, organizado em 2019 por instituições ligadas à saúde pública onde a Bill & Melinda Gates Foundation teve papel central. A simulação projetou justamente um coronavírus de origem animal que se espalha globalmente, e foi apontada por muitos como uma coincidência inquietante quando a Covid‑19 emergiu. Na prática, exercícios desse tipo representam movimentos preventivos no tabuleiro da saúde pública — tentativas de mapear caminhos, identificar vulnerabilidades e calibrar respostas antes que o jogo real se desenrole.
Do ponto de vista estratégico, porém, existe uma segunda camada: a da percepção pública. Quando nomes de alto perfil surgem conectados a discussões sobre pandemias, a tectônica de poder produz fissuras — e nas fendas surgem narrativas que podem ser exploradas por interesses diversos. É tarefa da análise responsável distinguir entre a preparação técnica e as teorias conspirativas que se alimentam de silêncios e omissões.
Em síntese, os e‑mails de 2015 e 2017 devem ser lidos como sinais de que, antes de 2019, já havia preocupação sobre possíveis rupturas sanitárias globais. Se isso constitui prova de premonição, influência indevida ou apenas bom senso de prevenção dependerá de investigações adicionais e da transparência completa dos arquivos. Até lá, manteremos a visão de xadrez: observar os movimentos, avaliar intenções e proteger os alicerces frágeis da diplomacia e da confiança pública.






















