Marco Severini — Nos documentos conhecidos como Epstein Files, o nome de Vladimir Putin surge em mais de mil ocorrências entre 2011 e 2018. Importa sublinhar, desde o início, que essa contagem não constitui prova de encontro ou de participação do presidente russo em ilícitos: os papéis descrevem sobretudo tentativas repetidas de aproximação por parte de Jeffrey Epstein e de intermediários.
Ao ler o conjunto documental com a frieza de um cartógrafo de poder, percebe-se um padrão: múltiplos esforços de acesso, comunicações e orientações logísticas que configuram mais um esforço de construção de rotas de influência do que evidência direta de um laço operacional. Em algumas mensagens encontradas, Epstein indica caminhos e táticas — e há até um arquivo de áudio em que se escuta instruções sobre como se aproximar do Kremlin e de seu líder.
Entre os atores emergentes nas trocas, destaca-se o nome do ex-primeiro-ministro norueguês Thorbjorn Jagland. Em pelo menos uma e-mail de Epstein dirigida a Jagland, surge a frase direta e reveladora: “Gostaria de encontrá-lo“. Em outras comunicações o tom é pragmático, quase coreográfico: uma recomendação de enviar um bilhete curto a Putin, informando que Epstein deixaria o governo em 14 de março e que estaria na Escandinávia ou na Europa ocidental/norte, sugerindo um jantar muito breve. Trata-se de instruções de aproximação típicas de quem manobra no tabuleiro buscando criar uma oportunidade.
A primeira menção substancial de Putin nos documentos remonta a setembro de 2011. Um contato não identificado refere-se a um encontro que Epstein teria dito ter organizado com Putin ainda naquele mês, quando este ocupava o cargo de primeiro-ministro. Não há evidências adicionais de que esse encontro tenha, de fato, ocorrido.
É necessário distinguir, com rigor diplomático, entre aparecimento nominal e vínculo comprovado. Os arquivos registram tentativas, mensagens, sugestões e presenças nos roteiros: muitos movimentos sobre o tabuleiro, poucas peças claramente conectadas. O áudio e as mensagens, no entanto, confirmam a intenção de Epstein de criar janelas de acesso ao poder — algo que, em termos estratégicos, corresponde a lançar pontes e sondar fragilidades nos alicerces da diplomacia.
Paralelamente aos dados sobre Putin, os arquivos contêm outras menções explosivas e reivindicações: entrevistas e afirmações como as do ex-agente da CIA John Kiriakou, que em podcast afirmou que Epstein teria sido recrutado por serviços de inteligência estrangeiros como um “agente de acesso” — uma alegação que deve ser tratada como tal, ou seja, uma declaração de fonte cuja veracidade requer checagem independente. Também há referências a trocas entre Epstein e figuras como Bill Gates e nomes ligados a famílias bancárias, apontando para uma teia ampla e multifacetada de contato entre elites.
Do ponto de vista geoestratégico, o caso oferece uma lição clássica: na ausência de provas irrefutáveis, a percepção da intenção pode ser tão relevante quanto a comprovação do ato. A repetição do nome Putin nos Epstein Files representa um movimento tático — uma tentativa de mapear e abrir canais. Cabe aos investigadores e aos jornalistas transformar esses movimentos em provas documentadas, mantendo a precisão e evitando extrapolações precipitadas.
Em suma, o material recém-publicado revela um jogo de aproximações e sondagens. Há som, há texto, há estratégia implícita — mas falta, até o momento, o xeque‑mate probatório. A tectônica de poder permanece em mutação; o registro documental apenas ilumina onde foram feitos os movimentos.






















