Por Marco Severini — Em um movimento que reordena, mais uma vez, peças sensíveis no tabuleiro da política internacional, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou relatórios do FBI relacionados a acusações de agressão sexual contra o ex-presidente Donald Trump. Os papéis apontam para depoimentos colhidos em 2019 por uma mulher que afirma ter sido apresentada ao magnata por Jeffrey Epstein quando ainda era menor de idade.
Os documentos, até então não incluídos no conjunto dos chamados “Epstein files” publicados em janeiro, descrevem três entrevistas conduzidas em agosto e outubro de 2019, durante o primeiro mandato de Trump e após o suicídio de Epstein na prisão. Segundo o relato presente nos relatórios, a mulher — cujo nome está censurado — relatou que, entre os 13 e 15 anos, foi levada por Epstein a Nova York ou Nova Jersey, a um “edifício muito alto com quartos enormes”, onde teria sido apresentada a Donald Trump.
Nos depoimentos, ela descreve que Trump a criticou por parecer “tomboy” e que, em seguida, teria tentado permanecer a sós com ela, tentando obrigá‑la a um ato oral. Quando ela reagiu, mordendo-o, diz ter sido agredida fisicamente. Alega ainda que, ao longo do tempo, recebeu ligações ameaçadoras que acreditava terem ligação com Epstein ou com “aquele outro”, em referência a Trump.
A publicação desses relatórios reacende acusações longamente ventiladas na esfera pública sobre ligações entre figuras do poder e as redes de Jeffrey Epstein. Críticos acusaram anteriormente a administração Trump de ocultar documentos que pudessem revelar conexões entre o então presidente e o financista. A liberação parcial agora afasta, ainda que de forma incompleta, a cortina sobre alguns desses relatos.
A reação oficial foi imediata. A porta‑voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, qualificou as alegações como “completamente infundadas” e sustentadas por “zero provas credíveis”, descrevendo a autora das acusações como uma “mulher tristemente perturbada” com antecedentes criminais. A equipe de Trump afirma que o atual Departamento de Justiça, sob a administração Biden, estava ciente das alegações e optou por não agir por entender que não havia base para medidas contra o ex‑presidente.
Trump, por sua vez, nega repetidamente qualquer envolvimento nas atividades de Epstein, afirmando ter rompido a amizade com o financista antes das primeiras denúncias. Cabe lembrar, no entanto, que em 2023 um tribunal civil considerou Donald Trump responsável por agressão sexual e difamação em ação movida por E. Jean Carroll, decisão que evidenciou, na esfera cível, um precedente relevante sobre alegações de conduta sexual do ex‑presidente.
Do ponto de vista estratégico, a divulgação destes documentos funciona tanto como um teste de resistência institucional quanto como uma jogada de tectônica política. A confiança nas instituições — do FBI ao Departamento de Justiça — é um alicerce frágil da diplomacia doméstica; a forma como esses casos são tratados tende a redesenhar fronteiras invisíveis entre poder, impunidade e escrutínio público. Para atores internacionais, o episódio é um lembrete de que crises pessoais podem desdobrar consequências geopolíticas, alterando capital político e alianças.
Enquanto a opinião pública processa mais esta série de revelações, a verdade documental circula como peças de um mapa em constante atualização — e a próxima jogada, seja no tribunal, seja no debate público, poderá ser decisiva para a estabilidade do eixo de influência que ainda circunda figuras do Establishment norte‑americano.






















