Novos documentos divulgados no vazamento conhecido como Epstein Files reavivam questões profundas sobre as conexões entre capitais privados, influência política e zonas de sombra na governança internacional. No centro deste novo capítulo está o nome de Marc Rowan, atual CEO da Apollo Global Management e um dos membros fundadores nomeados por Donald Trump para o controverso Board of Peace para Gaza.
As peças liberadas mostram trocas de e-mails e encontros regulares entre Rowan e o financista condenado Jeffrey Epstein, inclusive depois da explosão pública do escândalo que envolveu Epstein. Segundo os documentos, os contatos não teriam sido episódicos: tratavam-se de discussões sobre negócios, planejamentos fiscais e estruturas financeiras complexas nas quais Epstein atuava como conselheiro de confiança para operações multimilionárias e para a gestão patrimonial pessoal de Rowan.
Na perspectiva de quem observa o tabuleiro global com atenção estratégica, essa persistência de laços representa um movimento preocupante no centro de gravidade do poder. A substituição de Leon Black por Marc Rowan no comando da Apollo foi interpretada por muitos como uma ruptura; os novos documentos indicam, porém, que o calendário público nem sempre coincide com os alicerces privados das relações de poder.
O contexto político amplia a relevância do episódio. O Board of Peace de Gaza, cujos sete fundadores incluem figuras como Tony Blair, Marco Rubio, Jared Kushner, Steve Witkoff, Ajay Banga e Robert Gabriel, foi concebido como uma arquitetura de administração e reconstrução dominada por Estados Unidos e Israel, sem representação palestina efetiva. A composição do conselho e sua aproximação com capitais privados sugerem um redesenho de fronteiras invisíveis entre estado, mercado e governança tutelada.
As revelações obrigam a leitura de três riscos simultâneos: 1) o risco reputacional e operacional para instituições financeiras que mantêm vínculos com atores desacreditados; 2) o risco político de legitimação de estruturas decisórias externas a populações afetadas; 3) o risco sistêmico de concentração de influência entre atores que operam em múltiplos níveis do poder — econômico, diplomático e securitário.
Como um jogador num xadrez de alto nível, a política externa dos Estados Unidos e seus aliados desenha movidas que aparentam ser soluções técnicas — fundos, comitês, coordenação internacional —, mas que frequentemente constroem alicerces frágeis da diplomacia quando excluem vozes essenciais. A presença continuada de uma figura como Epstein na retaguarda de decisões financeiras lembra que as peças mais poderosas no tabuleiro nem sempre estão nos lugares mais visíveis do mapa.
Do ponto de vista da estabilidade regional e da credibilidade internacional, torna-se imperativo que investigações independentes clarifiquem a extensão e a natureza desses laços, e que mecanismos de governança inclinam-se para transparência e inclusão. Sem isso, iniciativas de reconstrução e pacificação correm o risco de serem percebidas como imposições tecnocráticas, sustentadas por redes privadas cujo interesse pode divergir do bem público.
Os documentos do Epstein Files não são apenas um arquivo de relíquias de escândalo: são um espelho das interconexões entre poder financeiro e decisões que moldam regiões inteiras. Cabe ao observador — e ao arquiteto das políticas — sondar cada movimento, medir riscos e reposicionar as peças para que a estabilidade não seja apenas aparência, mas fundamento duradouro.





















