Por Marco Severini — Em movimento decisivo no tabuleiro informacional, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos liberou, nos primeiros meses de 2026, milhões de documentos e mensagens eletrônicas ligados ao financista Jeffrey Epstein. O pacote de arquivos, conhecido como Epstein Files, inclui correspondência, e‑mails e outros materiais que permitem um panorama mais amplo das conexões, interesses e rotinas que orbitavam em torno do seu círculo.
Parte desse acervo ganhou forma pública por meio de réplicas da sua caixa de correio, acessível no projeto Jmail. O endereço público que reúne essa reprodução é: https://jmail.world — um repositório que facilita a leitura direta das mensagens originais disponibilizadas pelo governo.
Importante esclarecer, com a cautela que exige a diplomacia da informação, que os arquivos tornados públicos não apresentam, até o momento, declarações inequívocas que descrevam ou comprovem atos de exploração sexual de menores que motivaram o processo penal contra Jeffrey Epstein antes de sua morte em 2019. Não há, nos materiais liberados, transcrições explícitas das condutas objeto de acusações anteriores. O que se observa, sim, é um entrelaçado de comunicações institucionais e pessoais.
Os e‑mails revelam trocas com empresários, líderes políticos, acadêmicos e personalidades públicas. Entre os contatos listados no arquivo Jmail aparecem figuras como Elon Musk, Bill Gates, Larry Summers, Prince Andrew e Ghislaine Maxwell. A manchete que tem circulado — e que aparece em vários resumos do arquivo — cita também nomes como Trump, Conte, Blanchett e DiCaprio, indicando a presença de referências ou menções que agora integram o mapa público de relações.
Analistas que catalogaram os documentos, como a equipe do DocETL, apontam que mais de 2.300 e‑mails analisados demonstram uma predominância de comunicações logísticas: coordenação de voos, deslocamentos, reservas, convites para jantares e eventos privados. Há, também, conversas sobre investimentos, tecnologias emergentes — incluindo criptomoedas — e iniciativas científicas. Em várias trocas, nota‑se a solicitação de apresentações, pedidos de reunião e gestões de favor, arquitetando uma rede de influência conservada por rotinas de protocolo e reciprocidade.
Algumas mensagens utilizam linguagem enigmática: termos que foram traduzidos ou interpretados como referências a “caça” ou a expressões tipo “snipe hunts” em contextos de festas privadas. Esses vocábulos têm provocado especulação pública, mas carecem de interpretações oficiais e permanecem objeto de análise sem conclusões definitivas.
Entre as correspondências há ainda referências a visitas de grupos a sedes corporativas, como a organização de visitas à SpaceX, e negociações comerciais — por exemplo, trocas com o então presidente do grupo petrolífero Api, Ugo Brachetti Peretti, sobre a venda de propriedades, com menção a comissões comerciais. Esses fragmentos mostram que o arquivo não é apenas uma cronologia de relações sociais, mas um mapa operacional de interesses que se moviam entre negócios, filantropia e circulação social.
Do ponto de vista estratégico, a abertura desses arquivos representa um redesenho de fronteiras invisíveis no tabuleiro da opinião pública: as cartas são agora parcialmente expostas, mas o significado das jogadas permanece frequentemente velado. Para a comunidade internacional, o desafio será interpretar essas evidências com rigor jurídico e analítico, separando o que constitui simples networking do que pode apontar para responsabilidades penais ou éticas.
Como analista, afirmo que o acesso público ao Epstein Files é um movimento de transparência que amplia o campo de investigação — contudo, a estabilidade das conclusões depende de passos judiciais e periciais que traduzam indícios em provas. Até lá, cabe à diplomacia informativa construir a arquitetura interpretativa com precisão, evitando equívocos que possam abalar alicerces frágeis da reputação de indivíduos e instituições.





















