Marco Severini — O caso Epstein continua a sacudir os alicerces frágeis da diplomacia interna dos Estados Unidos: entre a divulgação massiva de documentos, relatos de culpa e a expectativa por depoimentos que prometem abalar o tabuleiro político — ou, ao contrário, revelar-se movimentos de retórica com pouco efeito prático.
Nas últimas semanas o Departamento de Justiça tornou públicos cerca de três milhões de arquivos relacionados ao financista condenado, cuja morte na prisão permanece envolta em pontos não totalmente esclarecidos. A avalanche documental atraiu jornalistas, parlamentares e analistas; contudo, até o momento, não produziu conclusões definitivas.
Um novo foco de controvérsia, levantado em reportagens do New York Times e anteriormente pela NPR, diz respeito a lacunas sensíveis no material tornado público: estariam ausentes três dos quatro relatórios do FBI sobre acusações de agressão sexual vinculadas a Donald Trump. Os documentos faltantes, segundo o índice dos arquivos, corresponderiam aos depoimentos de uma mulher que em 2019 afirmou ter sido agredida por Trump e por Epstein nos anos 1980, quando era menor.
Dois pontos emergem desse episódio. Primeiro, o inventário oficial reconhece quatro interrogatórios, mas o que foi disponibilizado ao público é apenas um resumo concentrado sobretudo em Epstein e não em Trump. Segundo, o Departamento de Justiça justifica a omissão com alegações de segredos de investigação e procedimentos federais em curso — explicação que, previsivelmente, não acalma a suspeita política. Figuras democratas, incluindo a ex-presidente da Câmara Nancy Pelosi, sugeriram que pode haver uma manobra governamental para blindar o Presidente em exercício.
Curiosamente, Trump explorou o escândalo Epstein em sua retórica eleitoral, alimentando as correntes conspiratórias de sua base. Agora, pressionado por esses mesmos apoiadores a liberar documentos, ele classifica o episódio como “tempo passado”; no último discurso do Estado da União, que durou 1h48, não houve qualquer menção ao caso.
Enquanto isso, o foco desloca-se para as próximas depoências registradas em vídeo de Bill e Hillary Clinton perante o Congresso. O ex-presidente terá de responder sobre múltiplos voos no jato privado de Epstein e sobre a circulação de fotografias comprometedoras, incluindo imagens em uma banheira de hidromassagem. Hillary — que nega ter encontrado Epstein — terá de esclarecer suas relações com Ghislaine Maxwell, apontada como cúmplice do financista.
James Comer, presidente da comissão de fiscalização, confirmou que os depoimentos ocorrerão a portas fechadas, com transcrição subsequente para publicação — ironia histórica que remete ao episódio de Monica Lewinsky em 1998, outro momento que testou a resiliência institucional da presidência Clinton.
Dos milhões de documentos disponibilizados começam a emergir tramas e contatos entre Epstein e figuras de destaque nos mundos político, empresarial e acadêmico: relações que, em muitos casos, eram formais ou legais, mas frequentemente eticamente ambíguas. É aqui que a tectônica de poder revela seu movimento mais inquietante: não se trata apenas de indivíduos, mas de redes e zonas cinzentas que sustentam influências e favores.
Como analista, vejo esse episódio como um movimento decisivo no tabuleiro — um lance que pode redesenhar fronteiras invisíveis de poder ou, alternativamente, ficar confinado ao vai-e-vem de acusações públicas e recuos institucionais. A pergunta central é se a transparência documental servirá como arquitetura de responsabilização ou como cortina para manobras políticas. Observaremos, na cartografia das próximas semanas, se os nodos de influência serão desmanchados ou apenas reposicionados.






















