Por Marco Severini — A tectônica de poder no tabuleiro do Levante registra mais um movimento estratégico: os Emirados Árabes Unidos confirmaram um apoio financeiro decisivo ao projeto denominado Gaza First Planned Community, previsto para ser erigido em Rafah, no extremo sul da Faixa de Gaza. O plano, formulado no âmago do CMCC (Centro de Coordenação Civil e Militar dos Estados Unidos), foi apresentado a uma delegação de doadores europeus em 14 de janeiro e, desde então, catalisa críticas e apreensões de organizações não governamentais e observadores internacionais.
Em termos arquitetônicos e cartográficos, trata-se de um redesenho de espaço habitado com controles rigidamente definidos: uma área residencial fechada, com pontos de passagem controlados por checkpoints, rígidos mecanismos de verificação de segurança e registro biométrico sistemático. Os residentes seriam submetidos a coleta de dados biométricos e teriam acesso a serviços essenciais condicionados a esse controle — além de receberem um instrumento econômico digital referido no documento como um “carteira eletrônica” operando em shekels.
O projeto será, segundo os documentos internos tornados públicos, coordenado por um organismo recentemente concebido pelo Executivo norte-americano, o chamado Board of Peace, parte da matriz administrativa associada ao pacote de vinte pontos vinculado à agenda do presidente Donald Trump. O papel atribuído ao CMCC é o de supervisionar a administração e a implementação operacional da comunidade planejada.
As reações são firmes e carregadas de densidade moral: várias ONGs qualificaram a iniciativa como a construção de um campo de concentração ou de um “ghetto” moderno, uma “prisão a céu aberto” que consolidaria um sistema de confinamento sob supervisão da IDF (Forças de Defesa de Israel). Para essas entidades, a oferta financeira dos Emirados Árabes Unidos transforma-se em financiamento indireto de uma arquitetura de controle populacional, numa culminância que alguns analistas descrevem com termos historiográficos carregados — um alerta sobre alicerces frágeis da diplomacia e os riscos de normalização de estruturas de segregação.
Do ponto de vista geopolítico, a operação tem lógica instrumental: realocar populações, concentrar serviços e controles numa área delimitada facilita a administração, mas também redesenha fronteiras invisíveis entre direitos e exceções. Em linguagem de estratégia, é um movimento no tabuleiro que favorece atores com capacidade de monitoramento e controle, sacrificando liberdade de movimentação e privacidade individual ao preço de segurança e assistência humanitária condicionada.
Entre as questões práticas que permanecem em aberto estão a seleção dos residentes com acesso à comunidade planejada, o regime de controles nas passagens, os mecanismos de governança local e a natureza jurídica dos dados biométricos colhidos — quem terá acesso, por quanto tempo serão retidos e com quais salvaguardas. A ausência de respostas claras amplia o espaço para suspeitas e para mobilização de atores da sociedade civil.
Como analista que acompanha as correntes de influência no Mediterrâneo e no Oriente Médio, observo que quando capital externo financia infraestrutura sensível em zonas de conflito, não se trata apenas de filantropia: é um instrumento de projeção de influência e de construção de novos equilíbrios. Resta acompanhar se o que está sendo desenhado emergirá como um projeto de reconstrução civil coerente com direitos humanos ou se consolidará como um mecanismo de segregação sob aparência de assistência.
O movimento dos Emirados Árabes Unidos é, portanto, um lance estratégico de alto risco no tabuleiro regional — um movimento que exige resposta coordenada da diplomacia internacional, monitoramento das ONGs e transparência operacional. Sem isso, o projeto de comunidade planejada em Rafah corre o risco de tornar-se um marco de nova cartografia de exclusão, com consequências que ultrapassam a mera reconstrução física e tocam os alicerces da convivência política na região.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.






















