Por Marco Severini, Espresso Italia — Há um claro estremecimento nas relações entre França e Estados Unidos. O embaixador norte-americano em Paris, Charles Kushner, não compareceu à convocação oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês na noite desta segunda-feira, após declarações da administração Trump sobre a morte de um estudante de extrema-direita.
O próprio Ministério confirmou a ausência e qualificou o episódio como uma “incompreensão das prerrogativas fundamentais da missão diplomática”. Em termos diplomáticos — e sempre procurando ler o movimento como num tabuleiro — a recusa ou o não comparecimento a uma convocação ministerial é um lance que altera o clima entre aliados, criando fricções onde normalmente se espera coordenação e clareza de papéis.
O Quai d’Orsay deixou claro, contudo, que permanece aberta a uma retificação: “Resta, naturalmente, possível que o embaixador Charles Kushner exerça as suas funções e se apresente no Quai d’Orsay para os necessários contactos diplomáticos, com o objetivo de aplainar as razões de irritação que inevitavelmente surgem numa amizade de 250 anos“. A expressão sublinha a importância histórica da relação franco-americana, cujos alicerces, apesar de robustos, são por vezes testados por incidentes políticos e comunicacionais.
Não é a primeira vez que o embaixador Kushner, figura marcada também por um parentesco político com Donald Trump, é chamado a explicar declarações controversas. Em agosto passado, ele foi convidado ao Quai d’Orsay depois de afirmar que o governo francês não estaria fazendo o suficiente para conter uma suposta onda de antissemitismo. Na ocasião, em sua ausência, um encarregado de negócios da embaixada norte-americana compareceu em seu lugar — um arranjo protocolar que geralmente busca preservar o canal de diálogo, mesmo quando o titular está indisponível.
Do ponto de vista estratégico, o episódio é relevante por dois motivos. Primeiro, demonstra que mesmo as alianças históricas estão sujeitas a micro-sismos: declarações de responsabilidade governamental, interpretações mediáticas e sensibilidades internas podem provocar movimentos de reação que exigem gestão fina. Segundo, revela com nitidez a necessidade de canais de comunicação resilientes entre capitais, para que o ruído retórico não se transforme em ruptura institucional.
Na cartografia das relações internacionais, movimentos como este redesenham fronteiras invisíveis — limitam a margem de manobra diplomática e obrigam a recalibragem de prioridades. Para Paris, a convocação é um gesto de prestação de contas; para Washington, a ausência pode ser interpretada de formas variadas: desde um equívoco protocolares até um cálculo deliberado para não amplificar o episódio no terreno público.
Em suma, trata-se de um lance que merece atenção dos estrategistas: a estabilidade das relações entre França e Estados Unidos depende tanto dos tratados e interesses estratégicos quanto do manejo cuidadoso das aparências e prerrogativas. Resta acompanhar se o embaixador Charles Kushner optará por comparecer ao Quai d’Orsay nos próximos dias — um movimento que, no xadrez diplomático, poderia ser decisivo para recompor a normalidade.






















