Por Marco Severini — A junta do Myanmar abriu hoje as urnas para a terceira e última fase das eleições que, segundo observadores pró-democracia, parecem projetadas para consolidar a permanência dos militares no poder. O pleito começou por volta das 6h da manhã no horário local (23h30 GMT de sábado) em cidades como Mandalay, a segunda maior do país, onde o partido pró-militar USDP já aparece em posição dominante.
O país, marcado por décadas de domínio castrense, experimentou um breve período de liberalização civil que durou cerca de uma década, até o retorno abrupto dos militares com o golpe de 2021. Desde então, a liderança da democracia, a laureada com o Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, permanece detida, e o país mergulhou numa guerra civil que precipitou uma séria crise humanitária.
Esta terceira fase abrange dezenas de circunscrições, e chega numa semana que marca o quinto aniversário do golpe militar. As forças armadas reiteraram que o voto restaurará o poder ao povo, mas a votação é incapaz de ocorrer em vastas áreas sob controle de grupos armados. Com a retirada de Suu Kyi e a dissolução do seu partido — historicamente muito popular — ativistas e observadores denunciam uma eleição montada para favorecer aliados da caserna.
Nas duas primeiras fases, o Union Solidarity and Development Party (USDP) — composto majoritariamente por oficiais reformados e descrito por analistas como um partido-fantoche dos militares — conquistou mais de 85% dos assentos disputados na Câmara baixa e dois terços na Câmara alta. Acresce que a constituição elaborada pelos militares reserva automaticamente um quarto dos assentos legislativos às forças armadas, um mecanismo institucional que assegura influência direta sobre o Parlamento.
O Parlamento reunido escolherá o presidente, e o comandante-chefe Min Aung Hlaing não descartou assumir formalmente a chefia de Estado. Especialistas afirmam que o que se desenha é um esforço estratégico para conferir uma fachada de legitimidade civil a um governo essencialmente controlado pelos militares — um movimento calculado no tabuleiro político para consolidar uma hegemonia que já tem alicerces constitucionais.
Do ponto de vista geopolítico, o processo revela a persistência de uma tectônica de poder em que mecanismos legais e partidários são instrumentalizados para redesenhar fronteiras de autoridade sem confronto direto. Para a comunidade internacional e para os atores internos pró-democracia, a questão central não é apenas o resultado das urnas, mas a natureza do próprio jogo: uma eleição que, para muitos, lembra mais uma encenação do que uma transição genuína.
Enquanto isso, milhões de cidadãos continuam a enfrentar as consequências humanitárias do conflito: deslocamentos, insegurança alimentar e restrições ao acesso a serviços básicos. A estabilidade regional, por sua vez, observa o movimento com cautela, avaliando como as peças se rearranjam num tabuleiro cujas consequências poderão se estender para além das fronteiras do país.
Em suma, esta etapa final das eleições no Myanmar representa um momento decisivo — não apenas pela probabilidade de vitória dos militares, mas pelo significado estrutural do processo eleitoral em si: uma tentativa de transformar controle militar em legitimidade civil, preservando, no entanto, mecanismos institucionais que mantém as forças armadas como árbitro último do poder.






















